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terça-feira, 5 de novembro de 2024

Jesus desceu à mansão dos mortos

 

 

Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do Céu e da Terra e em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor; que foi concebido pelo poder do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu a mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos céus, está sentado a Direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir julgar os vivos e os mortos. Creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na Vida eterna. Amém!  

 

No segundo dia do Tríduo Pascal, Jesus, após se entregar, até a morte, ritualmente, na Ceia, e historicamente, na cruz, entrou na morte. É uma entrega só. No Sábado Santo e Solene Vigília Pascal, a Igreja nada celebra. É dia de silêncio e oração. O altar das igrejas permanece descoberto. 

Jesus, crucificado, morto e sepultado, conheceu a morte como todos os seres humanos. Com sua alma, unida à pessoa divina, foi à morada dos mortos, como Salvador, para proclamar o Evangelho e anunciar a Boa Nova aos espíritos ali aprisionados. 

No seio de Abraão, se encontravam os que estavam privados da visão de Deus. Todos os mortos, bons ou maus, esperavam o Redentor, que, no entanto, libertaria e abriria as portas do céu somente os justos que o haviam precedido. 

No Sábado Santo a Igreja permanece em silêncio junto ao túmulo, aguardando a ressurreição do Senhor.  Após a morte na cruz, o corpo de Jesus Cristo foi colocado no sepulcro e lá permaneceu, por apenas um dia. Sua alma humana separou-se do corpo e ficou no estado de mansão dos mortos, de "sono", "dormindo". 

No estado de morte, a alma separada do corpo, ainda não podia entrar na glória do céu, que estava fechado, após o pecado original, para a humanidade. Somente será aberto com a ressurreição de Nosso Salvador. Ele morreu na cruz e experimentou a morte. É um mistério. O autor da vida, engolido pela morte.  

A morte de Cristo foi real. Durante três dias, entre o momento em que “espirou” (Mc 15,37) e a ressurreição, o Salvador experimentou o “estado de morte”, por meio da separação da alma e do corpo. 

Na Carta aos Hebreus foi descrita a obra de libertação dos justos por este evento da descida à mansão dos mortos: “Como os filhos têm em comum a carne e o sangue, também Jesus participou da mesma condição, para destruir, com a sua morte, aquele que tinha o poder da morte, isto é, o diabo. Assim libertou os que, por medo da morte, estavam a vida toda sujeitos à escravidão” (2:14-15).

Na Primeira Carta de São Pedro lemos: “Pois também aos mortos foi anunciado o Evangelho, para que, mesmo julgados à maneira humana na carne, eles pudessem viver segundo Deus no Espírito” (4,6).

Pela doutrina católica, a “descida aos infernos” constitui a última fase da missão messiânica, pois a Palavra do Evangelho, assim como a graça justificadora de Jesus, alcançou a todos, inclusive as gerações que viveram antes do sacrifício de Cristo na Cruz, como Adão, Eva, Abel, Melquisedeque, Abraão, Isaac, Jacob, Moisés, Noé, David, Salomão, Isaías, Jeremias, Zacarias, os patriarcas e os profetas. 

O período da graça, perdido com o pecado original de Adão e Eva, somente foi reinaugurado com a Cruz de Cristo. Antes da Redenção, com a morte e ressurreição de Jesus, as portas do paraíso estavam fechadas, desde a expulsão deles. Rompida a amizade com o homem que, tentado pelo diabo, deixou morrer a confiança em seu Criador, abusou da liberdade e desobedeceu ao mandamento divino, Deus colocou dois Arcanjos diante das portas do céu para que ninguém pudesse voltar. 

As almas das pessoas justas que, no Antigo Testamento, tinham morrido, aguardavam por esta "inauguração do céu". No Fim dos Tempos, as almas dos justos serão também unidas aos seus corpos ressuscitados, na ressurreição final. Então as pessoas salvas e justificadas, em estado de graça, entrarão na glória de Deus, de corpo e alma, configurando plenamente ao Cristo ressuscitado.  

Ao morrerem, eles não poderiam estar diante do Pai porque, além de carregarem a mancha do pecado original, não tinham recebido a graça e o perdão dos pecados pessoais e, portanto, não estavam unidos a Deus, de forma sobrenatural.  

Todavia, estas pessoas boas não poderiam ser punidas com a pena dos sentidos (queimarem no fogo do inferno) porque viviam a justiça, ainda que de forma natural. Como não estavam perdoados de seus pecados, não podiam escapar da pena de dano (ausência de Deus), aplicada no círculo exterior do inferno.

Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus (doutrina formalizada no Concílio de Calcedônia, em 451, d.C.), tal como professado na profissão de fé de São Cirilo, ali desceu, já morto, para declarar a sua vitória sobre o demônio, para mostrar o seu poder e pegar, pelas mãos, aquelas pessoas boas e justas e levá-las para o céu. O Salvador ressuscitou todos eles. São Paulo, na sua Carta aos Filipenses 2:10-11, disse que ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra e toda língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (.

Confira esta bela e antiga homilia para o Sábado Santo:

 

"O que está acontecendo hoje? Um grande silêncio e uma grande solidão reinam sobre a terra. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.

 

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva libertos dos sofrimentos.

 

O Senhor foi onde eles estavam, levando em suas mãos a cruz vitoriosa. Quando Adão o viu exclamou para todos os demais: O meu Senhor, está no meio de nós! E Cristo tomando Adão pela mão, disse-lhe: Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos...

 

Eu sou o teu Deus, e por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora aos que estavam na prisão da morte: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’

 

Eu ordeno: Acorda, ó tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.

 

Por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até sepultado; por ti tornei-me como alguém sem apoio. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, num jardim fui crucificado.

 

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida. Vê as bofetadas que levei para restaurar tua beleza corrompida. Vê as marcas dos açoites que suportei para retirar de teus ombros o peso dos teus pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à cruz, por causa de ti, pois outrora estendeste levianamente tuas mãos para a árvore do Paraíso. Adormeci na cruz, e por tua causa a lança penetrou no meu lado, assim como Eva surgiu do teu costado, quando adormecestes no Paraíso. Meu lado curou a dor do teu costado; meu sono vai arrancar-te do sono da morte. E minha lança deteve a que estava dirigida contra ti.

 

Levanta-te, vamo-nos daqui. O inimigo te expulsou do Paraíso; eu, porém, agora te coloco num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem, e ordeno que eles te cuidem como Deus, embora não o sejas.

 

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o Reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade. Vem!"  

Entre a morte e a ressurreição, no sábado, possivelmente no dia 8 de abril do ano 30, Jesus desceu ao Limbo dos Patriarcas para libertar os justos, abrir o céu, dar-lhes a beatitude, a bem aventurança e confirmar o seu poder divino.  

No dia anterior à Ressurreição, Cristo foi à mansão dos mortos, livre e vitorioso, sem perder sua divindade, para cumprir o que estava escrito nas Escrituras: o Messias libertaria os cativos e abriria o caminho para a salvação ...

O Filho de Deus libertou as almas dos justos, que ali aguardavam a Redenção. Demonstrou a vitória sobre o pecado e a morte, completando, assim, a obra de salvação iniciada com sua crucificação e morte. Em outra derrota para o demônio, houve a manifestação do poder soberano de Cristo sobre o mundo espiritual, mostrando que Ele tem autoridade sobre o inferno e a morte. 

A descida à morada dos mortos preparou o caminho para a ressurreição de Jesus Cristo, que ocorreu no Domingo de Páscoa, inaugurando, assim, uma nova era de vida e esperança para todos os que creem Nele.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O sacramento da Eucaristia

 


Na noite em que ia ser entregue, celebrando com os apóstolos a última Ceia, o Bom Jesus “tomou o pão, deu graças, partiu-o e lhes deu, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós'” (Lc 22,19). Também “pegou o cálice, deu graças, passou-o a eles, e todos beberam. E disse-lhes: ‘Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos’.” (Mc 14,23-24). 


A fé católica nos ensina que a Eucaristia – o Santíssimo Sacramento - ação de graças e louvor a Deus, é a fonte maior da vida cristã. Contém todo o bem espiritual da Igreja, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Por ela, nos unimos à liturgia celeste e antecipamos, já na terra, a vida eterna. 

De acordo com São João Paulo II, a Igreja vive da Eucaristia, seu tesouro. Para o Concílio Vaticano II, ela é a fonte e o centro da vida cristã.

Santo Agostinho destaca a presença real de Cristo na Eucaristia.

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, do papa emérito Bento XVI, lemos que a Eucaristia, Sacramento da Caridade, é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. No sacramento do altar, o Senhor vem ao encontro do homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 27), fazendo-Se seu companheiro de viagem. Neste sacramento, Jesus torna-Se alimento para o homem, faminto de verdade e de liberdade. Uma vez que só a verdade nos pode tornar verdadeiramente livres (Jo 8, 36), Cristo faz-Se alimento de Verdade para nós. A Eucaristia é, por excelência, mistério da fé.  

Antes, na Antiga Aliança (Êxodo 16), o pão e o vinho já eram oferecidos em sacrifício em louvor à divindade. No contexto do Êxodo, os pães ázimos recordavam a partida libertadora dos judeus do Egito. O maná, no deserto, caia do céu, como o pão e alimento físico  e espiritual para o povo de Israel. Agora, o Pão da Vida, descido do céu, na Eucaristia, alimenta espiritualmente o fiel.

"Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós" (Jo, 6,53)

O sacramento da Eucaristia, dada a sua relevância, é chamado santíssimo porque nos dá o próprio autor da graça, Cristo.

Os sacramentos, comunicados pela Igreja, são visíveis, sinais da graça, que é invisível. Consistem nos canais pelos quais a graça, conquistada por Jesus, na Cruz, nos é dada. Agem por si só, ex opere operato, mas só possuem eficácia quando temos fé. A graça, sacramento dos vivos, fica ligada ao fiel.

A matéria e os sinais essenciais do sacramento são o pão, feito de trigo, e o vinho, de uva, sobre os quais é invocada a bênção do Espírito Santo. A forma consiste nas palavras que próprio Cristo utilizou na Última Ceia: isto é o Meu Corpo; isto é o Meu Sangue.

Não se trata de um mero símbolo. No altar, quando o sacerdote, o próprio Jesus, pronuncia as palavras Isto é o Meu Corpo, isto é o Meu Sangue, pela invocação do Espírito Santo, ocorre o milagre da transubstanciação: mudam-se as substâncias do pão e do vinho consagrados, que se convertem no verdadeiro Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ressurreto e vivo, ainda que os seus acidentes (a aparência, a textura, o gosto e o cheiro são de pão e de vinho) continuem os mesmos.

Bem aventurados os que creem sem terem visto!

“O nosso Salvador instituiu na última ceia, na noite em que foi entregue, o sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição” (Sacrosanctum Concilium, n. 47)

Santo Tomás de Aquino ensina que não se pode descobrir a presença do verdadeiro Corpo de Cristo e do verdadeiro Sangue de Cristo, neste sacramento, pelos sentidos, mas só pela fé, baseada na autoridade de Deus.

Cristo instituiu este sacramento para que pudéssemos nos alimentar espiritualmente Dele, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Com a graça do Espírito Santo, participarmos da comunhão com Deus. Cristo, que nos deu a graça, entra em nós, em uma união íntima e sagrada do corpo, sangue, alma e divindade do Salvador.

"Não perguntes se é ou não verdade; aceita com fé as palavras do Senhor, porque Ele, que é a Verdade, não mente" (São Cirilo).

Ele é o Pão da Vida descido do céu.

Pelo sacrifício, único e suficiente, de Cristo é que nos chega a graça. O autor da graça é o próprio Cristo, presente na Eucaristia.

Na missa, o sacerdote, elevado à esta condição pelo sacramento da Ordem, é aquele que oferece o sacrifício, in personae Christi. Cristo age a partir e através do sacerdote. No sacrifício da missa, como foi no calvário, Jesus é a vítima e também o (sumo) sacerdote da Nova Aliança. Ele próprio, de forma invisível, representado pelo bispo ou presbítero, quem preside toda a celebração eucarística.

Felizes os convidados para a ceia do Senhor. A festa das núpcias, a ceia definitiva entre os homens e Deus, será celebrada, em sua plenitude, somente no Fim dos Tempos (“... até que Ele venha”). Mas na missa, a festa redentora é antecipada na Eucaristia. 

A Eucaristia, que faz continuar a Última Ceia, se traduz na antecipação do sacrifício na Cruz e possui algo de escatológico porque nos faz lembrar dos Últimos Tempos. É a Ceia do Senhor, porque antecipa, aqui, a ceia das Bodas do Cordeiro, na Jerusalém celeste.

Santo Tomás de Aquino afirmou que:

“Nenhum outro sacramento é mais salutar do que a eucaristia. Pois, nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais. A Eucaristia é o memorial perene da paixão de Cristo, o cumprimento perfeito das figuras da antiga aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou” que a Eucaristia constitui o maior milagre realizado por Jesus neste mundo.”

A Eucaristia alimenta, restaura e nutre a alma dos homens, aproximando-os da união com Deus. Nos unimos ao Corpo de Cristo em nosso próprio corpo; recebemos a graça transformadora da presença de Nosso Senhor.

Se o Batismo inaugura a vida da graça, os sacramentos, operados pelo Cristo, são os canais da graça, as ações eficazes de Deus.

Participar plenamente da missa, como quem vai ao próprio Calvário. Para comungar, a preparação deve ser piedosa, porque iremos nos unir a Cristo. São Paulo exorta a um prévio exame de consciência (1Cor 11,27-29)

Para estarmos em estado de graça, é preciso preparamos o corpo, com a observância do jejum eucarístico de uma hora antes de comungarmos, e da alma, através da fé de que na Eucaristia está o corpo, sangue, alma e divindade de Cristo. Somente assim estaremos em perfeita unidade com Cristo.

Em João 6:51-58, Jesus disse que quem não comer da minha carne e beber do meu sangue não terá parte comigo.

Eucaristia e a cruz são o mesmo mistério. O sacramento é celebrado ao ser feito o sacrifício. O sacrifício é feito ao ser celebrado o sacramento. A eucaristia - que conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo - só é sacramento por ser sacrifício e só é sacrifício porque é sacramento.

É o sacramento por excelência. Nele está presente o próprio Cristo, o autor da graça. A comunhão - que aumenta nossa união com Cristo - é obrigatória para a perfectibilização do sacrifício.

Ele é o santíssimo sacrifício. Perpetua o sacramento e a presença real de Cristo por perpetuar nele o sacrifício.

Jesus Cristo se ofereceu, por amor e misericórdia, como um sacrifício perfeito e suficiente para a remissão dos nossos pecados. A eucaristia é a presentificação deste sacrifício; é a cruz tornada presente, de forma incruenta.

Na Eucaristia estão presentes, aqui na terra, o mesmo corpo e o mesmo sangue, a mesma alma e divindade do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, que está no céu. O mesmo Cristo que, sob ação do Espírito Santo, se encarnou no meio de nós, nascido da Virgem Maria. O Verbo divino se fez carne e habitou entre nós

É a mesma pessoa que andou, peregrinou e ensinou pela Galileia e Judeia, sob o domínio do Império Romano, no governo de Pôncio Pilatos. É aquele que, sob as regras judaicas, foi circuncidado no oitavo dia de vida, já antecipando o derramamento de sangue por nós, 33 anos depois. 

É o mesmo Jesus que, por ocasião da festa da Páscoa, em Jerusalém, se perdeu dos pais e foi encontrado no Templo, aos doze anos, já ensinando. Ele chamou e escolheu seus doze Apóstolos. É aquele que sofreu as tentações no deserto e iniciou seu ministério com a realização do primeiro milagre, da transformação da água em vinho, nas Bodas de Caná. 

Foi Ele quem pregou e ensinou as bem-aventuranças; contou parábolas; realizou inúmeros milagres; paciente, anunciou o Reino de Deus; converteu Saulo de Tarso; ressuscitou Lázaro; curou cegos, coxos e endemoniados. 

Após desagradar os fariseus, mestres da lei e as autoridades da época, foi perseguido, traído e humilhado. Antevendo sua Paixão, quis ardentemente comer a páscoa com os seus Discípulos. 

Na Última Ceia, em sinal de humildade e serviço, lavou-lhes os pés. Anunciou o traidor e, após, instituiu o sacramento da Eucaristia, como memória de sua morte e de sua ressurreição, dando-lhes o mandamento do amor. Ordenou a seus Apóstolos que a celebrassem até a sua volta: “fazei isto em memória de mim”. Em seguida, entregou-se e deixou-se capturar. 

Sabendo, desde sempre, como seria o fim, sofreu, como humano, no Monte das Oliveiras. Em agonia, suou sangue. Pediu para que o Pai afastasse Dele aquele cálice, mas que se fizesse a Sua vontade. Nosso Senhor Jesus Cristo, sob a lei judaica, foi julgado pelo Sinédrio, chefiado por Caifás, e injustamente condenado, pelo governador romano Pôncio Pilatos. Foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos. Ao terceiro dia, ressuscitou. Depois de quarenta dias, elevou-se e subiu ao céu, de corpo e alma, glorioso. Está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso, onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

É o mesmo Jesus encarnado, crucificado, que caminhou na terra entre nós, comeu, bebeu, chorou, sangrou e sofreu.

“Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17)

Quanto mais participamos da vida de Cristo; quanto mais estreitamos e progredimos em Sua amizade, mais nos afastamos do pecado e nos aproximamos da antecipação da glória celeste.

Através da nossa fé cristã, provida pela graça divina, temos a oportunidade de entrarmos em comunhão com o próprio Deus, através da Eucaristia, memorial sacrifical de Cristo e de seu corpo, onde se faz presente, vivo e ressurreto, o próprio Filho do Homem, Jesus Cristo, o leão da tribo de Judá e descendente de Davi. 

                                                                                  No amor e na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

domingo, 16 de abril de 2017

Páscoa


Anúncio do Evangelho (Jo 20,1-9)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.



No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo.
Então ela saiu correndo e foi encontrar Simão Pedro e o outro discípulo, aquele que Jesus amava, e lhes disse: “Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”.
Saíram, então, Pedro e o outro discípulo e foram ao túmulo. 4Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao túmulo. Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou.
Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão 7e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte.
Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu, e acreditou.
De fato, eles ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

Jesus Cristo, Nosso Senhor, ressuscitou e está vivo no meio de nós. Venceu a morte. Prevaleceu a vida. Através da Santa Eucaristia, podemos nos encontrar e recebê-lo em nós todos os dias. Em sua memória, por todos os séculos, comemos o pão e bebemos o vinho, materializados na Hóstia consagrada. Através da sua ressurreição, Jesus prova que a morte não é o fim e que Ele é, verdadeiramente, o Filho de Deus. Celebremos e proclamemos a Vida!

"Sepulcro de Jesus 
Domingo, 9 de abril de 30 d.C. 
Alvorada 
O dia ainda não raiou. Logo a aurora brilhará sobre Jerusalém, marcando o terceiro dia desde a morte de Jesus. Maria Madalena toma para si a responsabilidade da tradicional tarefa de examinar o corpo do morto. Ela vai ao local com outra mulher chamada Maria, embora esta não seja a mãe de Jesus. 
Como no dia em que o Nazareno foi executado, as ruas da Cidade Alta estão silenciosas. Elas atravessam os muros da cidade pela porta do Jardim e agora refazem os últimos passos do Nazareno, seguindo em direção ao Gólgota. 
A trave vertical em que Jesus foi crucificado continua erguida no topo da colina, aguardando a próxima crucificação. As duas Marias afastam os olhos dessa visão abominável e contornam a colina até o sepulcro de Jesus. 
Seus pensamentos estão voltados para questões práticas. Maria Madalena nunca se esqueceu das tantas vezes em que Jesus foi bom para ela. E, da mesma forma que o havia ungido com perfume e lavado seus pés com suas lágrimas, ela agora pretende ungir seu corpo com óleos aromáticos. 
É inconcebível para ela que o cadáver de Jesus possa apodrecer e exalar mau cheiro. Talvez dali a um ano, quando ela voltar para a Páscoa e estiver entre aqueles que rolarão a pedra que tapa o sepulcro de Jesus para reunir seus ossos, o aroma adocicado dos perfumes possa emanar da entrada da caverna em vez do cheiro da morte. 
Esse, por sinal, é outro desafio que ela precisa enfrentar no momento: Maria é fisicamente incapaz de afastar a pedra que sela o mausoléu; ela precisará de ajuda. 
Porém a maioria dos discípulos de Jesus continua foragida. Como o dia anterior foi sábado e Maria seguiu o mandamento que ordena descanso absoluto, ela não sabe do soldado romano enviado para vigiar a tumba. 
Mas não há guarda algum ali. Ao se aproximarem da tumba, as duas Marias ficam chocadas. A pedra que bloqueia a entrada do sepulcro foi afastada. A cripta está vazia. 
Maria Madalena dá um passo cauteloso à frente e espia o seu interior. Ela sente o aroma de mirra e aloé, usados para ungir o corpo de Jesus. Vê claramente a mortalha de linho em que o corpo estivera envolvido. Mas não há mais nada ali. 
Até hoje, o corpo de Jesus de Nazaré nunca foi encontrado. " (O'Reilly, Bill; Dugard, Martin. "Os últimos passos de Jesus: Um fascinante relato histórico da vida e dos tempos de Jesus". Editora Sextante)

sábado, 15 de abril de 2017

Sábado Santo. Vigília Pascal

Anúncio do Evangelho (Mt 28,1-10)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

1Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 

3Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. 4Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos.

5Então o anjo disse às mulheres: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. 6Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. 

7Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos”.

8As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos.

9De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: “Alegrai-vos!

As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés. 10Então Jesus disse a elas: “Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.



"Cidade Alta de Jerusalém 
7 de abril de 30 d.C. 3 da tarde às 6 da tarde 

É preciso se apressar. O esquadrão da morte teve um dia duro, mas ainda há mais trabalho pela frente. Normalmente, eles deixam um homem na cruz por dias após a sua morte, às vezes permitindo que seu corpo se decomponha ou até seja devorado por animais selvagens. 

Mas a lei judaica determina que não é permitido deixar um corpo em um “madeiro” durante o sábado, que começa ao pôr do sol do dia de hoje e continua ao longo de todo o dia seguinte. 

Então o quaternio deve baixar Jesus da cruz e jogar seu corpo na vala comum reservada aos criminosos. O exactor mortis se certifica da morte de Jesus perfurando seu peito com uma lança. Os fluidos pleural e pericárdico acumulados em volta do coração e dos pulmões de Jesus por horas jorram para fora, misturados a um jato de sangue. 

Após puxar a ponta da lança de volta, o capitão da guarda ordena que seus homens removam Jesus da cruz. É uma crucificação ao contrário, com os homens usando escadas e trabalhando em equipe para baixar Jesus e a trave mestra ao chão. Jesus é deitado de costas novamente, mas agora o esquadrão da morte precisa se empenhar em remover os pregos sem entortá-los. 

O ferro é caro, e os pregos são reutilizados o maior número de vezes possível. Quase todos aqueles que testemunharam a crucificação de Jesus já foram embora. Maria, sua mãe, e Maria Madalena estão entre os que restaram. 

Mas, enquanto os soldados dão continuidade ao trabalho árduo de retirar o homem da cruz, um saduceu chamado José de Arimateia se aproxima. Este rico membro do Sinédrio e discípulo secreto de Jesus foi uma das poucas vozes discordantes durante o julgamento ilegal. 

A outra foi a de Nicodemos, o fariseu, que agora se encontra ao lado de José no topo do Gólgota. Eles receberam permissão de Pilatos para levar o corpo, uma vez que o governador deseja abafar a execução o mais rápido possível. 

De forma um tanto espantosa, José e Nicodemos estão declarando publicamente sua sujeição aos ensinamentos de Jesus. José leva o corpo de Jesus ao mausoléu particular de sua família, uma caverna recém-escavada no calcário maleável de uma encosta perto dali. 

Os judeus acreditam que a simples presença de um criminoso em um mausoléu é suficiente para profaná-lo. E o que é pior: o ato de tocar um cadáver na Páscoa torna qualquer membro do Sinédrio impuro e o desqualifica para participar do Sêder, o banquete cerimonial a ser realizado nesse dia. 

Pela lei, José e Nicodemos serão declarados impuros e deverão se submeter a um ritual de purificação de sete dias. No entanto, esses dois membros corajosos do Sinédrio não dão importância a isso e demonstram sua lealdade a Jesus carregando seu corpo sem vida pelo Gólgota abaixo e até o mausoléu. 

Não há tempo para executar o ritual de limpeza e unção do cadáver com óleo. Mas eles realizam o gesto extravagante de cobrir o corpo com mirra e aloé, perfumes caros que servem para atenuar o cheiro de decomposição que está por vir. 

Então envolvem o corpo em um tecido de linho, fazendo questão de deixá-lo frouxo ao redor do seu rosto para o caso de Jesus não estar realmente morto, mas apenas inconsciente. 

Desta forma, ele não sufocará. A tradição judaica determina que todos os corpos devem ser examinados três dias depois da morte aparente. Assim, o sepulcro será reaberto e Jesus será examinado no domingo. Mas tudo isso não passa de uma formalidade, pois Jesus está claramente morto. 

A perfuração causada pela lança em seu pericárdio não deixa dúvida. Mesmo assim, o sepulcro será reaberto no domingo. Depois que a morte for oficialmente declarada, seu cadáver continuará ali por um ano inteiro. 

Então os ossos serão removidos de seu corpo decomposto e depositados em um pequeno jarro de pedra chamado de ossário, que por sua vez será armazenado em um nicho escavado na parede do mausoléu ou transferido para outro local. 

O sepulcro de Jesus fica em um jardim do lado de fora da cidade. A pedra que cobrirá sua entrada pesa centenas de quilos. Ela já está posicionada sobre um sulco que torna mais fácil rolá-la. O sulco, no entanto, foi aberto em um ângulo ligeiramente descendente. 

Isolar o sepulcro hoje será mais fácil do que afastar a pedra pesada para abri-lo no domingo. José e Nicodemos carregam o corpo para dentro do mausoléu e o deitam sobre o leito de pedra lavrada. 

Poeira e um cheiro forte de perfume pairam no ar. Os homens se despedem formalmente de Jesus e então saem do mausoléu. Maria, mãe de Jesus, observa os dois homens fazerem força para rolar a pedra que vedará a entrada do sepulcro. 

Maria Madalena também assiste à cena. O feixe de luz do sol que invade a cripta fica cada vez menor à medida que a pedra ocupa o seu lugar. Jesus de Nazaré previu sua morte e até pediu a Deus que afastasse o cálice da amargura de seus lábios. 

Mas agora está feito. O silêncio no túmulo é completo. Sozinho na escuridão do mausoléu, Jesus de Nazaré finalmente descansa em paz.


Palácio de Pilatos, Jerusalém 
Sábado, 8 de abril de 30 d.C. Dia 

Pôncio Pilatos tem visitas. Novamente, Caifás e os fariseus se encontram diante dele. Mas agora eles estão dentro do palácio, pois já não temem que a presença do governador os torne impuros, uma vez que a Páscoa chegou ao fim. 

Pela primeira vez, Pilatos nota que Caifás está aterrorizado com o poder de Jesus. O que não era tão óbvio enquanto o Nazareno estava vivo é bastante claro depois da sua morte, pois o sumo sacerdote está fazendo um pedido muito incomum. 

Caifás diz a Pilatos, sem rodeios: – Aquele impostor disse: “Depois de três dias ressuscitarei.” Ordena, pois, que o sepulcro dele seja guardado até o terceiro dia, para que não venham seus discípulos e, roubando o corpo, digam ao povo que ele ressuscitou dentre os mortos. 

Há certa lógica em seu pedido. O desaparecimento do corpo de Jesus poderia levar a uma revolta contra os sacerdotes do Templo caso seus seguidores convencessem o povo de que aquele homem que afirmava ser o Cristo provou ser imortal. 

A presença da guarda romana frustraria qualquer tentativa de violar o sepulcro e roubar o cadáver. Pilatos atende ao pedido de Caifás. – Levem um destacamento – ordena ele. – Podem ir, e mantenham o sepulcro em segurança como acharem melhor. 

Assim, guardas romanos passam a vigiar o sepulcro de Jesus, para o caso de o defunto tentar escapar. Esse deveria ter sido o fim da história. O agitador blasfemador está morto. O Sinédrio e Roma não têm mais motivos para se preocuparem. 

Se os seguidores do Nazareno pretendiam causar problemas, não há qualquer sinal disso. Os discípulos parecem acovardados, ainda perplexos com a morte de seu messias. Eles estão foragidos e não representam ameaça para Roma. 

Pilatos se sente aliviado. Logo estará a caminho de Cesareia, onde poderá voltar a governar sem a interferência constante dos sacerdotes do Templo. 

Mas Caifás se recusa a ir embora. Trajando suas vestes caras de linho, ele continua diante de Pilatos, sem saber o que o governador dirá a Roma. Ele tem muito a perder, e o fato de Pilatos ter “lavado suas mãos” o preocupa, pois deixa claro que o governador está tentando se distanciar daquele processo todo. 

Ele perderá tudo se o imperador Tibério o culpar pela morte de Jesus. Então Caifás se mantém firme, buscando qualquer sinal de aprovação por parte de Pilatos, mas o governador romano está farto da arrogância daquele sacerdote. Sem dizer mais nada, ele se levanta e vai embora." (O'Reilly, Bill; Dugard, Martin. Os últimos passos de Jesus: Um fascinante relato histórico da vida e dos tempos de Jesus. Editora Sextante.)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O lava-pés



Anúncio do Evangelho (Jo 13,1-15)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + escrito por João.
— Glória a vós, Senhor.


1Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
2Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. 3Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.
6Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: “Senhor, tu me lavas os pés?” 7Respondeu Jesus: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”.
8Disse-lhe Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. 9Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”.
10Jesus respondeu: “Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos”.
11Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: “Nem todos estais limpos”.
12Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? 13Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. 14Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

Ontem terminou o período quaresmal, caracterizado pela penitência, reflexão e sacrifícios. Hoje inicia-se o tríduo pascal com a cerimônia do lava pés. No Evangelho de João, Livro da Glória, serão revelados os sinais da glorificação de Jesus. O amor caracteriza toda a cena e caracteriza o Cristo em suas atitudes. Lavar os pés uns dos outros traduz-se em um ensinamento cristão de humildade e serviço com o próximo. É o define, por natureza, cada seguidor do Evangelho, especialmente aqueles que detém o poder. Qualquer autoridade somente se justifica se for para servir e nunca ser servido. A exemplo do Filho de Deus. O gesto de Jesus lavar os pés de seus Discípulos foi uma verdadeira revolução e revelação para toda a humanidade. Além de ser um prelúdio de sua paixão, revela um gesto de amor infinito e extremo. O lava-pés remete à cruz. O serviço prestado de forma desinteressada ao próximo regenera, purifica, salva. Ninguém está acima de ninguém. Todos somos irmãos e iguais perante o Senhor. Não podemos admitir qualquer forma de discriminação, opressão, desigualdade ou injustiça. A dignidade humana é inviolável e inegociável. Nesta Ceia foi instituída, também, a Eucaristia, a forma com que comungamos o corpo e o sangue do Cristo que vive e reina entre nós, hoje e sempre. Portanto, pela Palavra proclamada hoje oremos para receber a graça de Deus para vivermos segundo Seus ensinamentos e que tenhamos fé o força suficientes para nos ajoelharmos diante do próximo e praticarmos o SERVIÇO, a CARIDADE e o AMOR!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O que pensava Jesus

"O que Jesus pensava?

O que se passava na cabeça de Jesus na quarta-feira da semana santa? Havia experimentado a maior glória da sua vida no domingo anterior. Ele fora saudado com hosanas ao filho de Davi! A cidade o recebera como a um herói. A sagrada e tumultuada Jerusalém abrira suas portas de par em par. Mantos foram estendidos ao chão, ramos de oliveira agitados em frenesi. Foi o apogeu de uma carreira de três anos. Ele conhecia a cidade há muito tempo. Perdeu-se nela aos doze anos. Jerusalém, a dourada, com o templo refeito por Herodes, o Grande, deveria impressionar um homem nascido em Belém e criado na pacata Nazaré. 

Jesus amava a cidade santa. Em Lucas 19,41, lemos que ele chorou ao ver a cidade e antecipar sua destruição. Era uma paixão de verdade: sua maior crise de fúria tinha sido expulsar vendilhões do espaço sagrado. O gesto indicava seu zelo afetivo pelo lugar. Ninguém reconheceria o dócil pregador do Sermão da Montanha virando mesas e gritando. Talvez os íntimos conseguissem vislumbrar além: a cena impactante nascia do amor do Filho pela casa do Pai. 

Quarta-feira, mês de Nisã no calendário judaico, primavera na cidade santa. Dias mais frescos, céu azul, a temperatura mais amena de uma cidade alta. Como supomos que ele tinha capacidade de saber o que estava à frente, deveria existir um pouco de melancolia em relembrar que alguns dos que o saudaram do Domingo de Ramos estariam entre os que gritariam Barrabás na mesma semana. As mesmas bocas do “hosana” berrariam “crucifica-o”. 

Era a semana de Pessach, da celebração judaica que lembrava a libertação da escravidão do Egito. Haveria uma ceia com os amigos. Isso ocorreria amanhã, quinta-feira santa no calendário católico, quinta de endoenças na tradição portuguesa. 

No fim do século XV, Leonardo da Vinci canonizou a santa ceia como um ambiente centralizado, com 13 homens, sem empregados ou mulheres (Convento de S. Maria delle Grazie, Milão) . Jesus anuncia que alguém vai trai-lo. O afresco mostra o espanto geral. Judas segura um saco de moedas e derruba sal, sinal de azar. 


Cem anos mais tarde, Tintoretto ampliou a cena no quadro A última Ceia (Basílica de San Giorgio Maggiore, Veneza). Há funcionários, cachorros, anjos, louça sendo lavada. Passamos do mundo ordenado de Leonardo para uma rave. 


Na última ceia, Jesus diz algo comovente: eu desejei ardentemente comer esta ceia pascal antes de padecer (Lc, 22-15). É uma frase muito humana de compartilhar mesa e afeto com quem se ama antes do fim. Aqueles eram os doze homens que o acompanhavam havia anos. Alguns tinham gênio complexo. Tiago e João eram chamados de “filhos do trovão” pelo temperamento. Pedro era decidido e líder, mas negaria três vezes ao mestre na madrugada seguinte. Mesmo Judas estava ali. Talvez o Mestre tivesse uma dor dupla com seu tesoureiro: sabia que ele iria traí-lo, mas sabia que ele cometeria suicídio, o grande tabu judaico. Qual das dores mais incomodava ao Nazareno? Ser traído pelo discípulo-amigo ou perceber que Judas se condenava à danação? Era uma noite de emoções intensas. Os Evangelhos nunca narram Jesus sorrindo, mas descrevem inúmeros momentos do Messias chorando. 

Uma das virtudes de Jesus era a capacidade de surpreender. De repente, para espanto geral, Ele se levanta e começa a lavar os pés dos discípulos. Quer mostrar o grau de amor heróico que reverte hierarquias. Quem comanda é o primeiro servidor dos comandados. A lição é permanente e ainda não aprendida. Pedro, sempre cheio de arroubos teatrais, pede para ser lavado por completo. Jesus deve ser paciente. O pescador de homens está em formação. Pedro é um herói ainda imperfeito, que afunda na água quando tem medo, que nega o mestre, que cochila enquanto Jesus agoniza e que, ao final, vira a pedra sobre a qual toda a obra seria edificada. Pedro, a “pedra”, é humano. Jesus não escolheu anjos, mas seres humanos. Conhece a seus discípulos, e, curiosamente, ama-os do mesmo jeito. Amar conhecendo é um dom único e uma generosidade épica. 

A cena mais tocante da última Páscoa de Jesus é dada pelo afeto de João, o mais novo. Ele pousa a cabeça no peito do Mestre. É o benjamin do grupo e será o último a morrer. Ao redor daquela mesa estavam sentados o tema principal e cinco autores do Novo Testamento: Mateus, João, Pedro, Tiago e Judas Tadeu. Foi um encontro notável. Gosto de imaginar que, ali perto, numa cerimônia mais ortodoxa, estava o maior autor individual do Novo Testamento: Saulo de Tarso, sem saber que sua vida seria mudada pelos acontecimentos que transcorriam no Cenáculo. A ceia foi a última alegria de Jesus nas terríveis horas seguintes. 

Como funciona a cabeça de alguém que sabe o futuro? Eu me casaria tendo presente todos os desentendimentos futuros? Conversaria com alguém que me causaria decepção anos mais tarde? Talvez por isso seja vedado aos homens o conhecimento do futuro. Não aguentaríamos a dor da verdade pela frente. 

James Jacques Tissot (1836-1902) retratou o Calvário sob ângulo novo: a cena vista apelos olhos de Jesus (Ce que voyait Notre-Seigneur sur la Croix c. 1890. Brooklyn Museum, Nova York) . Procure essa imagem e você será apresentado a uma interpretação pouco comum. Ao invés de um Jesus centralizado, um que não está na cena ( a não ser por um detalhe dos pés), entretanto determina o horizonte de visão. Assumimos a posição dEle. 


A morte na cruz era excruciante pela dor; terrível pela humilhação de tormento típico de escravo e, para piorar, era a chance para o Messias avaliar a natureza humana que não cessa de surpreender pela pusilanimidade. Somos todos canalhas e, invariavelmente, covardes. 

E Ele amou aos homens apesar do que via. 

Boa semana santa."

Leandro Karnal