Bibliografia católica

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sexta-feira, 25 de outubro de 2024

O sacramento da Eucaristia

 


Na noite em que ia ser entregue, celebrando com os apóstolos a última Ceia, o Bom Jesus “tomou o pão, deu graças, partiu-o e lhes deu, dizendo: ‘Isto é o meu corpo, que é dado por vós'” (Lc 22,19). Também “pegou o cálice, deu graças, passou-o a eles, e todos beberam. E disse-lhes: ‘Este é o meu sangue da nova Aliança, que é derramado por muitos’.” (Mc 14,23-24). 


A fé católica nos ensina que a Eucaristia – o Santíssimo Sacramento - ação de graças e louvor a Deus, é a fonte maior da vida cristã. Contém todo o bem espiritual da Igreja, o próprio Cristo, nossa Páscoa. Por ela, nos unimos à liturgia celeste e antecipamos, já na terra, a vida eterna. 

De acordo com São João Paulo II, a Igreja vive da Eucaristia, seu tesouro. Para o Concílio Vaticano II, ela é a fonte e o centro da vida cristã.

Santo Agostinho destaca a presença real de Cristo na Eucaristia.

Na Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, do papa emérito Bento XVI, lemos que a Eucaristia, Sacramento da Caridade, é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. No sacramento do altar, o Senhor vem ao encontro do homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 27), fazendo-Se seu companheiro de viagem. Neste sacramento, Jesus torna-Se alimento para o homem, faminto de verdade e de liberdade. Uma vez que só a verdade nos pode tornar verdadeiramente livres (Jo 8, 36), Cristo faz-Se alimento de Verdade para nós. A Eucaristia é, por excelência, mistério da fé.  

Antes, na Antiga Aliança (Êxodo 16), o pão e o vinho já eram oferecidos em sacrifício em louvor à divindade. No contexto do Êxodo, os pães ázimos recordavam a partida libertadora dos judeus do Egito. O maná, no deserto, caia do céu, como o pão e alimento físico  e espiritual para o povo de Israel. Agora, o Pão da Vida, descido do céu, na Eucaristia, alimenta espiritualmente o fiel.

"Em verdade, em verdade, vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós" (Jo, 6,53)

O sacramento da Eucaristia, dada a sua relevância, é chamado santíssimo porque nos dá o próprio autor da graça, Cristo.

Os sacramentos, comunicados pela Igreja, são visíveis, sinais da graça, que é invisível. Consistem nos canais pelos quais a graça, conquistada por Jesus, na Cruz, nos é dada. Agem por si só, ex opere operato, mas só possuem eficácia quando temos fé. A graça, sacramento dos vivos, fica ligada ao fiel.

A matéria e os sinais essenciais do sacramento são o pão, feito de trigo, e o vinho, de uva, sobre os quais é invocada a bênção do Espírito Santo. A forma consiste nas palavras que próprio Cristo utilizou na Última Ceia: isto é o Meu Corpo; isto é o Meu Sangue.

Não se trata de um mero símbolo. No altar, quando o sacerdote, o próprio Jesus, pronuncia as palavras Isto é o Meu Corpo, isto é o Meu Sangue, pela invocação do Espírito Santo, ocorre o milagre da transubstanciação: mudam-se as substâncias do pão e do vinho consagrados, que se convertem no verdadeiro Corpo e no Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, ressurreto e vivo, ainda que os seus acidentes (a aparência, a textura, o gosto e o cheiro são de pão e de vinho) continuem os mesmos.

Bem aventurados os que creem sem terem visto!

“O nosso Salvador instituiu na última ceia, na noite em que foi entregue, o sacrifício eucarístico do seu Corpo e do seu Sangue para perpetuar pelo decorrer dos séculos, até ele voltar, o Sacrifício da cruz, confiando à Igreja, sua esposa amada, o memorial da sua morte e ressurreição” (Sacrosanctum Concilium, n. 47)

Santo Tomás de Aquino ensina que não se pode descobrir a presença do verdadeiro Corpo de Cristo e do verdadeiro Sangue de Cristo, neste sacramento, pelos sentidos, mas só pela fé, baseada na autoridade de Deus.

Cristo instituiu este sacramento para que pudéssemos nos alimentar espiritualmente Dele, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Com a graça do Espírito Santo, participarmos da comunhão com Deus. Cristo, que nos deu a graça, entra em nós, em uma união íntima e sagrada do corpo, sangue, alma e divindade do Salvador.

"Não perguntes se é ou não verdade; aceita com fé as palavras do Senhor, porque Ele, que é a Verdade, não mente" (São Cirilo).

Ele é o Pão da Vida descido do céu.

Pelo sacrifício, único e suficiente, de Cristo é que nos chega a graça. O autor da graça é o próprio Cristo, presente na Eucaristia.

Na missa, o sacerdote, elevado à esta condição pelo sacramento da Ordem, é aquele que oferece o sacrifício, in personae Christi. Cristo age a partir e através do sacerdote. No sacrifício da missa, como foi no calvário, Jesus é a vítima e também o (sumo) sacerdote da Nova Aliança. Ele próprio, de forma invisível, representado pelo bispo ou presbítero, quem preside toda a celebração eucarística.

Felizes os convidados para a ceia do Senhor. A festa das núpcias, a ceia definitiva entre os homens e Deus, será celebrada, em sua plenitude, somente no Fim dos Tempos (“... até que Ele venha”). Mas na missa, a festa redentora é antecipada na Eucaristia. 

A Eucaristia, que faz continuar a Última Ceia, se traduz na antecipação do sacrifício na Cruz e possui algo de escatológico porque nos faz lembrar dos Últimos Tempos. É a Ceia do Senhor, porque antecipa, aqui, a ceia das Bodas do Cordeiro, na Jerusalém celeste.

Santo Tomás de Aquino afirmou que:

“Nenhum outro sacramento é mais salutar do que a eucaristia. Pois, nele os pecados são destruídos, crescem as virtudes e a alma é plenamente saciada de todos os dons espirituais. A Eucaristia é o memorial perene da paixão de Cristo, o cumprimento perfeito das figuras da antiga aliança e o maior de todos os milagres que Cristo realizou” que a Eucaristia constitui o maior milagre realizado por Jesus neste mundo.”

A Eucaristia alimenta, restaura e nutre a alma dos homens, aproximando-os da união com Deus. Nos unimos ao Corpo de Cristo em nosso próprio corpo; recebemos a graça transformadora da presença de Nosso Senhor.

Se o Batismo inaugura a vida da graça, os sacramentos, operados pelo Cristo, são os canais da graça, as ações eficazes de Deus.

Participar plenamente da missa, como quem vai ao próprio Calvário. Para comungar, a preparação deve ser piedosa, porque iremos nos unir a Cristo. São Paulo exorta a um prévio exame de consciência (1Cor 11,27-29)

Para estarmos em estado de graça, é preciso preparamos o corpo, com a observância do jejum eucarístico de uma hora antes de comungarmos, e da alma, através da fé de que na Eucaristia está o corpo, sangue, alma e divindade de Cristo. Somente assim estaremos em perfeita unidade com Cristo.

Em João 6:51-58, Jesus disse que quem não comer da minha carne e beber do meu sangue não terá parte comigo.

Eucaristia e a cruz são o mesmo mistério. O sacramento é celebrado ao ser feito o sacrifício. O sacrifício é feito ao ser celebrado o sacramento. A eucaristia - que conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo - só é sacramento por ser sacrifício e só é sacrifício porque é sacramento.

É o sacramento por excelência. Nele está presente o próprio Cristo, o autor da graça. A comunhão - que aumenta nossa união com Cristo - é obrigatória para a perfectibilização do sacrifício.

Ele é o santíssimo sacrifício. Perpetua o sacramento e a presença real de Cristo por perpetuar nele o sacrifício.

Jesus Cristo se ofereceu, por amor e misericórdia, como um sacrifício perfeito e suficiente para a remissão dos nossos pecados. A eucaristia é a presentificação deste sacrifício; é a cruz tornada presente, de forma incruenta.

Na Eucaristia estão presentes, aqui na terra, o mesmo corpo e o mesmo sangue, a mesma alma e divindade do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, que está no céu. O mesmo Cristo que, sob ação do Espírito Santo, se encarnou no meio de nós, nascido da Virgem Maria. O Verbo divino se fez carne e habitou entre nós

É a mesma pessoa que andou, peregrinou e ensinou pela Galileia e Judeia, sob o domínio do Império Romano, no governo de Pôncio Pilatos. É aquele que, sob as regras judaicas, foi circuncidado no oitavo dia de vida, já antecipando o derramamento de sangue por nós, 33 anos depois. 

É o mesmo Jesus que, por ocasião da festa da Páscoa, em Jerusalém, se perdeu dos pais e foi encontrado no Templo, aos doze anos, já ensinando. Ele chamou e escolheu seus doze Apóstolos. É aquele que sofreu as tentações no deserto e iniciou seu ministério com a realização do primeiro milagre, da transformação da água em vinho, nas Bodas de Caná. 

Foi Ele quem pregou e ensinou as bem-aventuranças; contou parábolas; realizou inúmeros milagres; paciente, anunciou o Reino de Deus; converteu Saulo de Tarso; ressuscitou Lázaro; curou cegos, coxos e endemoniados. 

Após desagradar os fariseus, mestres da lei e as autoridades da época, foi perseguido, traído e humilhado. Antevendo sua Paixão, quis ardentemente comer a páscoa com os seus Discípulos. 

Na Última Ceia, em sinal de humildade e serviço, lavou-lhes os pés. Anunciou o traidor e, após, instituiu o sacramento da Eucaristia, como memória de sua morte e de sua ressurreição, dando-lhes o mandamento do amor. Ordenou a seus Apóstolos que a celebrassem até a sua volta: “fazei isto em memória de mim”. Em seguida, entregou-se e deixou-se capturar. 

Sabendo, desde sempre, como seria o fim, sofreu, como humano, no Monte das Oliveiras. Em agonia, suou sangue. Pediu para que o Pai afastasse Dele aquele cálice, mas que se fizesse a Sua vontade. Nosso Senhor Jesus Cristo, sob a lei judaica, foi julgado pelo Sinédrio, chefiado por Caifás, e injustamente condenado, pelo governador romano Pôncio Pilatos. Foi crucificado, morto e sepultado. Desceu à mansão dos mortos. Ao terceiro dia, ressuscitou. Depois de quarenta dias, elevou-se e subiu ao céu, de corpo e alma, glorioso. Está sentado à direita de Deus Pai todo poderoso, onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.

É o mesmo Jesus encarnado, crucificado, que caminhou na terra entre nós, comeu, bebeu, chorou, sangrou e sofreu.

“Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17)

Quanto mais participamos da vida de Cristo; quanto mais estreitamos e progredimos em Sua amizade, mais nos afastamos do pecado e nos aproximamos da antecipação da glória celeste.

Através da nossa fé cristã, provida pela graça divina, temos a oportunidade de entrarmos em comunhão com o próprio Deus, através da Eucaristia, memorial sacrifical de Cristo e de seu corpo, onde se faz presente, vivo e ressurreto, o próprio Filho do Homem, Jesus Cristo, o leão da tribo de Judá e descendente de Davi. 

                                                                                  No amor e na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

sábado, 28 de setembro de 2024

A Última Ceia

 A Última Ceia



Quando chegou a hora, Jesus e os seus apóstolos reclinaram-se à mesa. E disse-lhes: "Desejei ansiosamente comer esta Páscoa com vocês antes de sofrer. Pois eu lhes digo: Não comerei dela novamente até que se cumpra no Reino de Deus". Recebendo um cálice, ele deu graças e disse: "Tomem isto e partilhem uns com os outros. Pois eu lhes digo que não beberei outra vez do fruto da videira até que venha o Reino de Deus". Tomando o pão, deu graças, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: "Isto é o meu corpo dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim". Da mesma forma, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês. (Lucas, 22:14-20) 

A Última Ceia, celebrada em uma quinta-feira, no dia 6 de abril do ano 30, foi a antecipação do sacrifício da Cruz.

Nosso Senhor Jesus Cristo, em seu misericordioso projeto de Salvação dos homens, se encarnou no meio de nós, retrocedeu a eternidade e fez-se jovem, para morrer. Sendo inteiramente Deus e inteiramente homem, Ele nunca falou de Sua morte sem mencionar, em seguida, a Ressurreição.

Era necessário que houvesse um Memorial de Sua Paixão. E assim o fez para não deixar à memória vacilante dos homens. Foi por Ele instituído para lembrar a Sua morte e também porque voltaria a viver, glorioso, de corpo e alma, depois da Ressurreição.

Aquela ceia teve um caráter de despedida. Chegava o momento mais solene da vida do Ungido. Era a Sua hora. Reunido com seus Apóstolos, disse: - Na verdade vos digo que não tornarei a beber deste fruto da videira até que venha o reino de Deus.

Jesus, que veio realizar um batismo de sangue, queria, ardentemente, comer a páscoa com seus discípulos. O novo e eterno pacto entre Deus e o homem seria instituído naquela ocasião.

Iniciava, ali, um novo período, diferente da antiga Aliança de Deus. Antes, o pacto era concluído com sacrifícios de sangue de animais. A primeira aliança, com Israel, por intermédio de Moisés, foi prometida a libertação dos hebreus, o povo escolhido, da escravidão do Egito. Depois, através de Abraão, com o direito a progenitura e, mais tarde, de Davi, com a promessa do reinado.

Na véspera de Sua Paixão, durante a Páscoa, o Filho de Deus mediou um Novo Testamento, com o próprio sangue, derramado na Cruz. O verdadeiro Cordeiro Pascal que tira o pecado do mundo.

Antevendo a Sua hora, Jesus reuniu os doze Apóstolos que com ele caminhava há três anos, o início de sua vida pública. Em um ato sublime, interpretou o significado de Sua morte e declarou o início da Nova Aliança, que seria ratificada, na tarde do dia seguinte, com Sua morte sacrificial e vicária na Cruz.

O sacrifício do Cordeiro imolado era necessário para que houvesse a nossa perfeita comunhão com Deus. 

Era quinta-feira, após as 17 horas. Pela tradição judaica, o entardecer já é o começo de um novo dia. Durante a ceia, sabendo de seu destino como homem, deitou água em uma bacia e começou, como sinal de deferência e serviço, a lavar os pés dos discípulos, como prelúdio da paixão, e a secá-los com a toalha com que se cingira. Este gesto não reflete apenas a humildade, mas sim o ato salvador que Jesus fará para dar a vida ao mundo. O lava pés remete à Cruz. Os discípulos deveriam olhar também para o Calvário e imitar o gesto de amor de Nosso Senhor.

Onisciente, Jesus, o próprio Deus encarnado, sabia, desde sempre, que seria traído. Naquele momento, o traidor constituía uma das maiores preocupações do Mestre. Sempre foi dono e senhor dos acontecimentos. Tudo era feito e conduzido segundo a Sua vontade.

Trata-se de um dos episódios mais dramáticos do Evangelho. O sombrio contraste entre a ação de Nova Aliança e a ação do traidor à mesma mesa. Judas Iscariotes, descoberto e desmascarado, impelido por uma potência diabólica, saiu daquele Cenáculo. Mais tarde trocaria a informação privilegiada por 30 moedas de prata. A consumação da traição e a saída de Judas coincidem com a noite. Posteriormente, incrédulo e orgulhoso, sem arrependimento, pendurou-se em uma árvore para dar cabo à própria vida.

No momento solene daquela ceia, Jesus institui a Eucaristia. O novo mandamento do Amor estava consagrado. Toma o pão e, depois de o abençoar, parte-o e, com piedade, pronuncia as palavras de esperança sublime, as que traziam para sempre a este mundo de tristeza o banquete gozoso do Paraíso: Tomai e comei, isto é o meu corpo, que é dado por vós. Após todos comerem o pão abençoado, faz a mesma coisa com o cálice: Bebei todos deste cálice, pois este é o meu sangue, o sangue da Nova Aliança, que será derramado por muitos em remissão dos pecados.

A eucaristia dos cristãos pode ser entendida como a nova Páscoa. A morte e a ressurreição salvíficas de Jesus eram a perfeita forma de Deus para libertar a humanidade.

Os atos e palavras de Jesus antecipam e interpretam sua morte próxima. O que acontece com o pão, acontecerá ao corpo e o que acontece à taça de vinho acontecerá ao Seu sangue. Então, participar do pão e do vinho significa participar da morte de Jesus.

Estava desfeita a lei dos símbolos, holocaustos e dos sacrifícios de animais, para começar o tempo das realidades. Jesus acabava de instituir o sacrifício da nova e eterna Aliança. A Antiga Aliança foi redimensionada. Ele mesmo seria o sacrifício perfeito e suficiente, o Cordeiro imolado pelos nossos pecados.

Não havia mais dúvida: Cristo se revelou como o Filho de Deus, o Filho do Homem, o Cordeiro de Deus, o Pão da Vida. Com Sua morte, instituiu o sacramento da Eucaristia. Comendo o Seu sacratíssimo corpo e bebendo o Seu preciosíssimo Sangue, teremos a vida eterna.

Tudo o que Jesus preparou durante a sua vida, com palavras, atos, parábolas, explicações, usando símbolos e sinais do Antigo Testamento, todo o mistério foi finalmente revelado na Última Ceia, quando ele estabeleceu o rito da Nova Aliança e consumou a Sua missão messiânica neste mundo. Toda a vida de Jesus se orienta para esta hora final, o ponto culminante do Seu mistério.

O significado deste gesto de amor sublime é impensável. Transbordando de amor e misericórdia, a Paixão na Cruz seria pouco para Ele. Quis dar-se a cada um de nós de um modo permanente. Quis converter-se em alimento real da humanidade esfomeada. Deixava, assim, pela soberana vontade de Deus, um sacrifício perene e de valor infinito, um banquete em que o amor se entregava de uma maneira substancial. Escolheu ficar no mundo para alimento das almas sedentas.

A morte iminente, foi posta diante dos Apóstolos de forma simbólica e incruenta. Na Cruz, morreu pela separação do corpo e do sangue. Por isso, o pão e o vinho são consagrados separadamente, para anunciar a morte. Eucaristia, o Santíssimo sacramento e sacrifício, a partir da Cruz, ofertada, misericordiosamente, pelo próprio Autor da graça. O sacramento é celebrado ao ser feito o sacrifício. A comunhão é obrigatória para a perfectibilização do sacrifício.

Sublime o mandamento divino para prolongar e perpetuar o Memorial de Sua morte: Fazei isto em memória de mim (São Lucas 22,19). Significa renovai, por todos os séculos, até o fim dos tempos, o sacrifício oferecido pelos pecados do mundo.

Após a dupla consagração, Cristo deu aos Apóstolos, que irão transmiti-lo a todas as gerações como fonte de vida, de graça e de perdão, o poder e a ordem para fazer o que Ele tinha feito.

O Memorial, instituído pelo próprio Cristo, cabeça santa da Igreja, que não poderia ser vencido pela morte, deveria rememorar a todos os cristãos, até a consumação dos séculos, a Sua morte redentora na Cruz. A ordem foi para relembrar e anunciar Sua morte até que voltasse! Os discípulos deveriam anunciar, no futuro e para sempre, o Memorial da Paixão, morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Quando a Igreja repetisse o Memorial, Cristo, que, sob ação do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria e padeceu sob Pôncio Pilatos, estaria glorificado nos céus.

Na Quinta-Feira Santa, o Salvador apresentou aos Apóstolos o sacrifício sob as espécies de pão e do vinho.

Na missa, há uma aplicação, em um novo momento no tempo e uma nova presença no espaço, do único sacrifício de Cristo, agora, glorificado. Em obediência a Seu mandamento, os discípulos estariam representando, de forma não sangrenta, aquilo que Ele apresentou ao Pai no sacrifício de sangue do Calvário.

Todo amor almeja unidade e essa unidade, na ordem divina é a junção da alma e Cristo na comunhão.

Quando renovamos o Memorial e comemos e bebemos o Corpo e o Sangue, o fazemos a partir de um Cristo glorificado e ressuscitado, que continuamente intercede por nós, pecadores e miseráveis.

A salvação da Cruz é assim atualizada ao longo do tempo pelo Cristo celestial. Comer e beber a hóstia consagrada equivale a Jesus fazer à alma do homem o que a comida e a bebida fazem ao corpo.

Na Última Ceia Jesus deu aos Apóstolos algo que, ao morrer, ninguém mais poderia oferecer: a Si mesmo, a fim de consagrar a divina obra da Redenção. Não se trata, porém, de um fim trágico de um homem ou de uma simples recordação que não volta mais, mas sim da verdadeira salvação da humanidade.

Jesus queria que o mesmo drama do Calvário fosse encenado não apenas uma vez, mas por todos os tempos. Os homens não seriam apenas leitores da Obra de Redenção, mas parte e atores dela, oferecendo seu corpo e seu sangue junto com o de Cristo na reencenação do Calvário.

O cristão oferece ao Crucificado também o seu corpo, o seu sangue, as suas angústias e misérias a fim de que, morrendo para a natureza inferior, possamos viver para a graça divina. Ressuscitados espiritualmente, pudéssemos participar de Sua glória eterna.

O Pão Vivo que, comido sempre, nunca diminui, há de saciar a fome dos homens até o dia em que possam estar com o Pai, face a face. Não é só uma recordação, mas uma presença real.

A liturgia que a Igreja celebra é exatamente a ordem de renovação incruenta do santo sacrifício do altar. Jesus não morre em todas as missas. Ele morreu uma única vez, que foi suficiente para a remissão de todos os pecados. O efeito espiritual desta morte perpetua-se por toda a eternidade, até o fim dos tempos. A ceia de Jesus com os discípulos antecipa o banquete celeste do cordeiro, descrito no livro do Apocalipse.

O homem, sozinho, pecador, miserável e pequeno, não conseguiria apagar os seus próprios pecados. Era incapaz de se redimir e restabelecer a amizade com Deus pai, perdida com o pecado original. Foi necessário que o Cordeiro fosse imolado, com todos os profundos sofrimentos, para nos garantir a vida eterna.

Mal o sacerdote pronuncia as palavras da Última Ceia - isto é o meu corpo - o pão já não é pão. Pelo mistério da transubstanciação, converteu-se na carne de Cristo.

Fazei isto em memória de mim! Estas palavras conferiram a sua eficácia sobrenatural e divina a todas as missas que se haviam de celebrar no mundo, até o fim dos séculos.

Apesar do discurso de despedida, Jesus conforta os discípulos abatidos com a promessa do Consolador, que confirmará e fortalecerá a fé daqueles que serão perseguidos e martirizados. Pede que recordem a instrução recebida para a missão de pregar.

Através da Oração Sacerdotal, pronunciada no Cenáculo, traduz-se na oração eterna do Senhor glorificado. Na hora suprema da cruz, Jesus compre perfeitamente a obra do Pai, que foi revelado em Sua própria presença.

Somente com a força da Ressurreição, os efeitos espirituais da eucaristia e a vinda do Espírito Santo paráclito é que os Apóstolos tiveram firmeza, valentia e coragem para anunciar o Evangelho em todos os lugares, até os confins do mundo, batizando e anunciando o Reino de Deus.

                                                                                                  No amor e na paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Oração de São Tomás de Aquino, antes da comunhão


Deus eterno e todo-poderoso, eis que me aproximo do sacramento do vosso Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo. Impuro, venho à fonte da misericórdia; cego, à luz da eterna claridade; pobre e indigente, ao Senhor do céu e da terra. Imploro, pois, a abundância da vossa liberalidade, para que Vos digneis curar a minha fraqueza, lavar as minhas manchas, iluminar a minha cegueira, enriquecer a minha pobreza, vestir a minha nudez.

Que eu receba o Pão dos Anjos, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, com o respeito e a humildade, a contrição e a devoção, a pureza e a fé, o propósito e a intenção que convêm à salvação da minha alma.

Dai-me que receba não só o sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor, mas também o seu efeito e a sua força. 

Ó Deus de mansidão, fazei-me acolher com tais disposições o Corpo que o vosso Filho único, Nosso Senhor Jesus Cristo, recebeu da Virgem Maria, que seja incorporado ao seu Corpo Místico e contado entre os seus membros. 

Ó Pai cheio de amor, fazei que, recebendo agora o vosso Filho sob o véu do sacramento, possa na eternidade contemplá-la face a face.

Vós, que viveis e reinais na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.

Amém!