Bibliografia católica

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Os últimos passos de Jesus

" Cidade Alta de Jerusalém 7 de abril de 30 d.C. 
8 da manhã às 3 da tarde 

Jesus suporta seu castigo. Como qualquer outro condenado, suas mãos estão presas à argola de metal no topo do poste, obrigando-o a ficar imóvel. Dois legionários estão atrás dele, um de cada lado. 

Ambos trazem nas mãos um flagrum com cabo de madeira, do qual pendem três tiras de couro de cerca de 90 centímetros de comprimento cada. Hoje, em vez de pedaços de metal ou ossos de carneiro, os carrascos afixaram às suas pontas pequenos pesos de chumbo conhecidos como plumbatae. A escolha é estratégica. 

Esses acessórios não rasgam a carne e o músculo tão rápido quanto suas versões pontiagudas, mais afiadas, conhecidas como scorpiones. Ainda não está na hora de Jesus morrer. Um terceiro legionário ao lado deles segura um ábaco para contabilizar o número de golpes infligidos. O quarto membro do quaternio é o homem responsável por amarrar e acorrentar Jesus ao poste. 

Ele agora continua ali para substituir qualquer membro do esquadrão da morte que venha a se cansar da tarefa. Por último, há ainda a figura do exactor mortis, o homem responsável por supervisionar o grupo. Jesus sente as chicotadas. 

Não há intervalo entre os golpes. No instante em que um carrasco puxa o açoite de volta, o outro estala seu chicote nas costas de Jesus. Mesmo quando as tiras de couro e os pesos de chumbo se embaraçam, os soldados não param de brandi-los. 

O número máximo de chicotadas que um homem pode receber de acordo com a lei de Moisés é de “quarenta menos um”, mas os romanos nem sempre dão importância aos pormenores da lei judaica. Pilatos ordenou que aqueles homens açoitassem Jesus, de modo que eles o farão até o Nazareno estar fisicamente destruído, mas ainda vivo. 

Esta é ordem: ele deve ser flagelado, mas sob hipótese nenhuma deve morrer. Após o açoitamento, Jesus é libertado das correntes e colocado de pé. Ele gritou de dor durante o castigo, mas não vomitou nem teve convulsões, como costuma acontecer com muitos outros. 

Mesmo assim, ainda está perdendo muito sangue por causa de suas costas dilaceradas. As marcas dos açoites descem até suas panturrilhas. Além da desidratação que o atormentou durante toda a noite, Jesus começa a entrar em estado de choque. O esquadrão da morte romano, sem dúvida, fez um excelente trabalho. 

Flagelando o Nazareno com precisão cirúrgica, eles o levaram à beira da morte. Pilatos havia deixado claro que isso seria tudo que eles fariam no dia de hoje. Mesmo assim, os soldados ficam de prontidão para qualquer eventualidade. As mãos de Jesus ainda estão amarradas à sua frente. 

Ele é conduzido lentamente de volta para a prisão, onde os soldados romanos têm a chance de se divertir à sua maneira com aquele prisioneiro tão especial. 

Jesus não reage quando eles enrolam aquela capa púrpura imunda em volta do seu corpo nu, sabendo que ela logo ficará grudada em suas feridas. Os soldados então fazem de um caniço um cetro e o colocam nas mãos de Jesus, zombando mais uma vez de sua afirmação de que é um rei. 

Em vez de se apiedarem do homem que acabara de suportar uma flagelação, eles cospem no Nazareno. Se eles tivessem parado por aí, isso teria sido apenas a grosseira diversão de um grupo de homens perversos. Mas o deboche logo se transforma em sadismo. Até este momento, seria possível dizer que eles eram apenas soldados fazendo o trabalho para o qual foram treinados. 

Certamente os esquadrões da morte nazistas da Segunda Guerra Mundial, cuja conduta se basearia em grande parte nas atitudes frias e desumanas do quaternio romano, usaram esse argumento para se defender. 

Os atos de Júlio César e de tantos outros guerreiros romanos demonstram com clareza que punições inimaginavelmente duras eram a forma-padrão de lidar com os inimigos de Roma. Havia inclusive uma espécie de criatividade patológica em seus métodos. Mas os soldados que vigiam Jesus vão mais além. 

Não se trata de um único esquadrão da morte, mas de toda uma companhia de legionários escolhidos a dedo por Pilatos. Em mais uma exibição de crueldade, começam a cortar os ramos de um arbusto alto e branco. 

A Rhamnus nabeca possui folhas elípticas rígidas e pequenas flores verdes, mas sua principal característica são os espinhos afiados e curvos de 2,5 centímetros que brotam rente uns aos outros em seus caules. 

Os soldados estão dispostos a suportar as espetadas enquanto enrolam vários ramos para formar uma coroa. Quando terminam, essa grinalda é o complemento perfeito para o caniço e a capa púrpura. 

Viva o rei! Jesus está fraco demais para protestar quando a coroa de espinhos é encaixada em sua cabeça e os espinhos se enterram em sua pele. Eles dilaceram quase imediatamente os vários nervos que cercam o crânio e então se chocam contra o osso. 

Escorre sangue pelo seu rosto. Jesus fica ali, humilhado, na pequena cela, enquanto os soldados dançam ao seu redor – alguns dando-lhe socos, cuspindo nele e se ajoelhando para louvar seu “rei”. 

Não satisfeitos, os soldados arrancam o caniço das mãos de Jesus e o usam para golpear sua cabeça com força, o que afunda ainda mais os espinhos em sua pele. A dor é imediata, irradiando pelo rosto de cima a baixo. 

Para a alegria dos carcereiros, eles bolaram um dos mais terríveis métodos de tortura que já se imaginou. Mas, quando parece que Jesus já não pode mais suportar o suplício, os soldados são informados de que Pilatos gostaria de ver o prisioneiro. 

Ele então é levado novamente à praça pública, onde o Sinédrio e seus fiéis seguidores o aguardam. A visão de Jesus está turva. Fluidos se acumulam pouco a pouco em seus pulmões. Ele tem dificuldade para respirar. 

Mesmo tendo previsto sua morte desde o início, os pormenores de seu fim são apavorantes. Os chefes dos sacerdotes e líderes religiosos observam-no dar um passo à frente, a coroa de espinhos ainda em sua cabeça. Sua presença é a memória do homem que os humilhou publicamente nos pátios do Templo há apenas três dias. 

Eles veem quanto ele sofre agora, mas não se compadecem. Jesus deve morrer – e quanto mais dolorosa for sua morte, melhor. São 9 da manhã e Pilatos está novamente sentado no trono de juiz. 

Ele tenta mais uma vez libertar Jesus. – Eis o rei de vocês – diz ele com irritação para o grupo de líderes religiosos e seus discípulos. Aqueles homens deveriam estar nos pátios do Templo, pois o sacrifício dos cordeiros está prestes a começar. 

– Mata! – respondem os líderes religiosos em coro. 
– Mata! Crucifica-o! 

Pilatos está cansado de discutir. O governador romano não é conhecido por sua compaixão e acredita ter feito tudo ao seu alcance. O destino de Jesus simplesmente não vale tanto esforço. 

– Devo crucificar o rei de vocês? – pergunta ele, querendo ouvir uma última confirmação. – Não temos rei senão César – responde um dos chefes dos sacerdotes. 

Ao pé da letra, essas palavras são uma heresia, pois ao dizê-las o sacerdote está rejeitando o próprio Deus dos judeus em favor do deus dos romanos pagãos. 

Os seguidores do Sinédrio, no entanto, não percebem a ironia da situação. – Que crime ele cometeu? – grita Pilatos. 
– Crucifica-o! – respondem eles. Pilatos ordena que uma pequena tigela de água seja trazida. Ele mergulha as mãos no recipiente e se põe a lavá-las, como num ritual. 

– Estou inocente do sangue deste homem – diz ele aos líderes religiosos. 
– A responsabilidade é de vocês. 

Mas, na verdade, a responsabilidade é de Pilatos. Somente o governador romano possui o ius gladii – “o poder da espada”. Ou, em outras palavras, o direito de executar quem quer que seja. 

Então Pilatos ordena a seus carrascos que se encarreguem de Jesus. Enquanto eles levam o Nazareno para ser crucificado, Pôncio Pilatos se prepara para almoçar cedo. A capa púrpura é arrancada, mas a coroa de espinhos permanece. 

O esquadrão da morte deposita uma tora de madeira bruta sobre os ombros de Jesus. Ela pesa entre 22 e 31 quilos, tem pouco mais de 1,80 metro de cumprimento e suas farpas entram com facilidade nas feridas abertas no corpo do Nazareno. 

A humilhação no palácio de Pilatos agora está concluída, e a procissão rumo ao local de execução tem início. 

Na dianteira do grupo está o oficial conhecido como exactor mortis. Conforme manda a tradição, esse centurião carrega um letreiro com dizeres em grego, aramaico e latim. Normalmente, os crimes do condenado estão listados no letreiro, que será pregado à cruz acima dele. 

Desta forma, qualquer um que passe saberá por que aquele homem foi crucificado. Portanto, se a acusação for de traição, é isto que deve constar no letreiro. Pôncio Pilatos, entretanto, decide mudar a tradição. 

Em uma última tentativa de levar a melhor sobre Caifás, o governador escreve ele próprio a inscrição, usando um pedaço de carvão: Jesus de Nazaré, o rei dos judeus. 

– Não escrevas “O Rei dos Judeus”, mas sim que esse homem se dizia rei dos judeus – exige Caifás antes de a procissão seguir caminho para o local da crucificação. 

– O que escrevi, escrevi – responde Pilatos, arrogante. 

O letreiro segue à frente enquanto Jesus e seus quatro carrascos fazem o lento e doloroso caminho até o Gólgota, a colina utilizada pelos romanos para suas execuções. O trajeto é de pouco menos de 800 metros, conduzindo Jesus pelas ruas pavimentadas da Cidade Alta de Jerusalém, atravessando a porta do Jardim e subindo até a colina baixa em que uma trave vertical o aguarda. Já é quase meio-dia. 

Uma plateia considerável se reuniu para assistir ao espetáculo, apesar do sol a pino. Carpinteiro de profissão, o Nazareno sabe como se deve carregar uma tora de madeira, mas faltam-lhe forças. 

O exactor mortis fica preocupado ao notar que Jesus tropeça repetidas vezes. Se o condenado morrer antes de chegar ao local de execução, é ele quem será responsabilizado. 

Então um peregrino que assiste à cena, um judeu africano chamado Simão de Cirene é chamado para carregar a trave mestra para Jesus. 

A procissão continua. Apesar da ajuda, o Nazareno está constantemente prestes a desmaiar. Cada tropeço enterra mais ainda os espinhos em seu crânio. Jesus está com tanta sede que mal consegue falar. 

Enquanto isso, poucas centenas de metros à frente, nos pátios do Templo, a celebração da Páscoa já começou há tempos, desviando a atenção de muitos dos que reverenciam Jesus e que estariam se rebelando para salvar sua vida. O local de execução, chamado Gólgota, não é uma colina extensa. 

Trata-se de uma pequena elevação que se ergue nas proximidades dos muros de Jerusalém. Na verdade, qualquer um que esteja em cima daqueles muros poderá assistir à crucificação de Jesus sem precisar sequer erguer os olhos e inclusive ouvir cada palavra que ele disser, se ele falar alto o suficiente. Mas há horas Jesus não diz nada. 

Quando a procissão chega ao topo do Gólgota, os soldados mandam Simão embora e jogam a trave mestra no chão de terra e calcário – que alguns chamam de “pedra de Jerusalém”. 

A partir de agora, o esquadrão da morte assume o controle. Eles deitam Jesus à força no chão, posicionando seu tronco sobre a trave superior, o patibulum. Em seguida, suas mãos são esticadas e dois soldados depositam todo o peso sobre seus braços estendidos, enquanto outro se aproxima com um martelo de madeira grosso e um prego de ferro de 15 centímetros com uma haste quadrangular que se afunila até ficar pontiaguda. 

O soldado martela a ponta do prego na carne de Jesus, no exato local em que o rádio e a ulna, os dois ossos que compõem o esqueleto do antebraço, se encontram com os ossos do carpo no punho. 

Ele enfia o prego com força na pele para estabilizá-lo antes da martelada. Jesus grita de dor quando o ferro perfura o local. Os romanos usam o punho porque assim o prego não atinge o osso, atravessando toda a carne e chegando à madeira com apenas uns dois golpes do martelo. 

Os ossos do punho, por sua vez, cercam o tecido mole, formando uma barreira. Então, quando a cruz é içada e aqueles pregos precisam sustentar o peso do corpo da vítima, os ossos evitam que a fina camada muscular se rompa, impedindo assim que o condenado caia no chão. Com o primeiro punho já preso, o carrasco passa para o outro. 

Uma multidão assiste à cena do pé da colina. Entre ela estão a amiga devota de Jesus, Maria Madalena, e sua mãe, Maria. Ela veio a Jerusalém para a Páscoa, sem ter ideia da tragédia que se abateria sobre o filho. Agora já não pode fazer nada além de acompanhar sua agonia. 

Depois que Jesus é pregado à trave mestra, os carrascos o colocam de pé. É preciso ficar atento ao equilíbrio, pois o peso da madeira está agora sobre suas costas, e não sobre seus ombros. Fragilizado como está, seria fácil ele cair para a frente. 

Os soldados seguram as duas extremidades da trave e um terceiro ajeita Jesus enquanto eles o recostam contra a trave vertical que completará a cruz. 

O staticulum, como é chamada a trave que fica enterrada no chão, tem quase 2,5 metros de altura. Nos casos em que os romanos querem que a vítima sofra por dias a fio antes de morrer, um pequeno assento é acrescentado na metade de seu comprimento. 

Mas amanhã é sábado, e a lei judaica determina que qualquer homem deve ser baixado da cruz antes do início deste dia. 

Os romanos querem que Jesus morra depressa. Portanto, não há assento (sedile) em sua cruz. Tampouco há um descanso para os pés. Em vez disso, quando chegar a hora de pregar seus pés à cruz, eles precisarão ser dobrados em um ângulo cruel. 

Um dos soldados agarra Jesus pela cintura e ergue seu corpo enquanto os outros dois içam suas respectivas extremidades da trave mestra. O quarto carrasco está no topo de uma escada apoiada contra o staticulum, guiando a trave mestra até o pequeno encaixe talhado no topo da peça vertical. 

O peso do corpo do condenado mantém a trave encaixada. E é assim que agora Jesus de Nazaré está pendurado na cruz. Há ainda outro momento de agonia quando os joelhos de Jesus são ligeiramente dobrados, seus pés colocados um sobre o outro e pregados à madeira. 

O prego ultrapassa os ossos finos do metatarso para chegar à madeira, mas, surpreendentemente, nenhum deles se quebra, o que é inusitado em uma crucificação. 

Por fim, no espaço logo acima da cabeça de Jesus, o letreiro trazido pelo exactor mortis é também pregado à cruz. 

Terminada a parte mais dura do trabalho, o esquadrão da morte começa a zombar de Jesus, jogando dados para sortear sua túnica antes tão valiosa, gritando para ele: 

– Se você é o rei dos judeus, salve-se a si mesmo. 

Os carrascos romanos permanecerão no Gólgota até Jesus morrer. Eles beberão seu vinho avinagrado e até o oferecerão a Jesus. Se necessário, quebrarão suas pernas para acelerar o processo. A morte na cruz é uma forma lenta de sufocamento. 

Cada vez que a vítima inspira, ela precisa lutar contra o próprio peso do corpo e empurrar o tórax para cima usando as pernas, permitindo assim que os seus pulmões se dilatem. 

Com o passar do tempo, a vítima, exaurida, não consegue mais inspirar nem expirar.

Três horas se passam. A celebração da Páscoa continua nos pátios do Templo. Os sons de cantorias e trombetas percorrem toda a cidade e chegam até o local de execução. 

Jesus pode ver o Monte do Templo com clareza de seu lugar na cruz. Ele sabe que muitos ainda estão esperando por ele. A notícia de sua execução não chegou muito longe, para o alívio de Pilatos e Caifás, que ainda temem que os seguidores de Jesus iniciem uma rebelião ao saberem de seu assassinato. 

– Tenho sede – diz finalmente Jesus, cedendo à desidratação que o aflige há mais de 12 horas. 

Sua voz não passa de um sussurro. Um soldado encharca uma esponja com seu vinho avinagrado, erguendo-a até os lábios do Nazareno, sabendo que o líquido fará suas feridas arderem. Jesus suga o líquido ácido. 

Pouco depois, olha para Jerusalém pela última vez antes de o inevitável acontecer. 

– Está consumado – diz. 

Jesus baixa a cabeça. A coroa de espinhos se mantém firme. 

Ele perde a consciência. Seu pescoço relaxa. Todo o seu corpo cai para a frente, afastando seu pescoço e seus ombros da cruz. Somente os pregos em seus punhos o mantêm no lugar. 

O homem que um dia pregou o Evangelho com tamanho destemor, que viajou longas distâncias para contar ao mundo sobre uma nova fé e cuja mensagem de amor e esperança alcançou milhares de pessoas ao longo de sua vida – e no futuro alcançará bilhões de outras – para de respirar. Jesus de Nazaré está morto. Ele tem 36 anos." (trechos do livro de O'Reilly, Bill; Dugard, Martin. "Os últimos passos de Jesus: Um fascinante relato histórico da vida e dos tempos de Jesus" . Editora Sextante)

O sofrimento de Jesus

Primeira Leitura (Is 52,13 – 53,12)

Leitura Livro do profeta Isaías:

13Ei-lo, o meu Servo será bem-sucedido; sua ascensão será ao mais alto grau. 14Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo — tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano —, 15do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos. Diante dele os reis se manterão em silêncio, vendo algo que nunca lhes foi narrado e conhecendo coisas que jamais ouviram.

53,1”Quem de nós deu crédito ao que ouvimos? E a quem foi dado reconhecer a força do Senhor? 2Diante do Senhor ele cresceu como renovo de planta ou como raiz em terra seca. Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse.

3Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele.

4A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; e nós pensávamos fosse um chagado, golpeado por Deus e humilhado!

5Mas ele foi ferido por causa de nossos pecados, esmagado por causa de nossos crimes; a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura.

6Todos nós vagávamos como ovelhas desgarradas, cada qual seguindo seu caminho; e o Senhor fez recair sobre ele o pecado de todos nós.

7Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, ele não abriu a boca.

8Foi atormentado pela angústia e foi condenado. Quem se preocuparia com sua história de origem? Ele foi eliminado do mundo dos vivos; e por causa do pecado do meu povo foi golpeado até morrer.

9Deram-lhe sepultura entre ímpios, um túmulo entre os ricos, porque ele não praticou o mal nem se encontrou falsidade em suas palavras.

10O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, ele terá descendência duradoura, e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor.

11Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justos inúmeros homens, carregando sobre si suas culpas.

12Por isso, compartilharei com ele multidões e ele repartirá suas riquezas com os valentes seguidores, pois entregou o corpo à morte, sendo contado como um malfeitor; ele, na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores.

- Palavra do Senhor.

- Graças a Deus.

A Paixão de Cristo

Anúncio da Paixão de Cristo (Jo 18,1-19,42)

Narrador 1: Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo, segundo João.

Naquele tempo, 1Jesus saiu com os discípulos para o outro lado da torrente do Cedron. Havia aí um jardim, onde ele entrou com os discípulos. 2Também Judas, o traidor, conhecia o lugar, porque Jesus costumava reunir-se aí com os seus discípulos. 3Judas levou consigo um destacamento de soldados e alguns guardas dos sumos sacerdotes e fariseus, e chegou ali com lanternas, tochas e armas. 4Então Jesus, consciente de tudo o que ia acontecer, saiu ao encontro deles e disse:

— “A quem procurais?”
Narrador 1: 5Responderam:

— “A Jesus, o Nazareno”.

Narrador 1: Ele disse:
— “Sou eu”.

Narrador 1: Judas, o traidor, estava junto com eles. 6Quando Jesus disse: “Sou eu”, eles recuaram e caíram por terra. 7De novo lhes perguntou:
— “A quem procurais?”

Narrador 1: Eles responderam:
— “A Jesus, o Nazareno”.

Narrador 1: 8Jesus respondeu:
— “Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, então deixai que estes se retirem”.
Narrador 1: 9Assim se realizava a palavra que Jesus tinha dito:

— “Não perdi nenhum daqueles que me confiaste”.
Narrador 2: 10Simão Pedro, que trazia uma espada consigo, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco. 11Então Jesus disse a Pedro:

— “Guarda a tua espada na bainha. Não vou beber o cálice que o Pai me deu?”
Narrador 1: 12Então, os soldados, o comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus e o amarraram. 13Conduziram-no primeiro a Anás, que era o sogro de Caifás, o Sumo Sacerdote naquele ano. 14Foi Caifás que deu aos judeus o conselho:
Leitor 1: “É preferível que um só morra pelo povo”.

Narrador 2: 15Simão Pedro e um outro discípulo seguiam Jesus. Esse discípulo era conhecido do Sumo Sacerdote e entrou com Jesus no pátio do Sumo Sacerdote. 16Pedro ficou fora, perto da porta. Então o outro discípulo, que era conhecido do Sumo Sacerdote, saiu, conversou com a encarregada da porta e levou Pedro para dentro. 17A criada que guardava a porta disse a Pedro:

Leitor 2: “Não pertences também tu aos discípulos desse homem?”
Narrador 2: Ele respondeu:
Leitor 1: “Não”.

Narrador 2: 18Os empregados e os guardas fizeram uma fogueira e estavam se aquecendo, pois fazia frio. Pedro ficou com eles, aquecendo-se. 19Entretanto, o Sumo Sacerdote interrogou Jesus a respeito de seus discípulos e de seu ensinamento. 20Jesus lhe respondeu:

— “Eu falei às claras ao mundo. Ensinei sempre na sinagoga e no Templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada falei às escondidas. 21Por que me interrogas? Pergunta aos que ouviram o que falei; eles sabem o que eu disse”.

Narrador 2: 22Quando Jesus falou isso, um dos guardas que ali estava deu-lhe uma bofetada, dizendo:

Leitor 1: “É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?”
Narrador 2: 23Respondeu-lhe Jesus:

— “Se respondi mal, mostra em quê; mas, se falei bem, por que me bates?”

Narrador 1: 24Então, Anás enviou Jesus amarrado para Caifás, o Sumo Sacerdote. 25Simão Pedro continuava lá, em pé, aquecendo-se. Disseram-lhe:

Leitor 2: “Não és tu, também, um dos discípulos dele?”

Narrador 1: Pedro negou:

Leitor 1: “Não!”

Narrador 1: 26Então um dos empregados do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro tinha cortado a orelha, disse:

Leitor 2: “Será que não te vi no jardim com ele?”

Narrador 2: 27Novamente Pedro negou. E na mesma hora, o galo cantou. 28De Caifás, levaram Jesus ao palácio do governador. Era de manhã cedo. Eles mesmos não entraram no palácio, para não ficarem impuros e poderem comer a páscoa. 29Então Pilatos saiu ao encontro deles e disse:

Leitor 1: “Que acusação apresentais contra este homem?”

Narrador 2: 30Eles responderam:
— “Se não fosse malfeitor, não o teríamos entregue a ti!”

Narrador 2: 31Pilatos disse:

Leitor 2: “Tomai-o vós mesmos e julgai-o de acordo com a vossa lei”.

Narrador 2: Os judeus lhe responderam:
— “Nós não podemos condenar ninguém à morte”.

Narrador 1: 32Assim se realizava o que Jesus tinha dito, significando de que morte havia de morrer. 33Então Pilatos entrou de novo no palácio, chamou Jesus e perguntou-lhe:
Leitor 1: “Tu és o rei dos judeus?”

Narrador 1: 34Jesus respondeu:

— “Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros te disseram isto de mim?”

Narrador 1: 35Pilatos falou:

Leitor 1: “Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?”.

Narrador 1: 36Jesus respondeu:
— “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”.
Narrador 1: 37Pilatos disse a Jesus:

Leitor 1: “Então, tu és rei?”
Narrador 1: Jesus respondeu:

— “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.

Narrador 1: 38Pilatos disse a Jesus:
Leitor 1: “O que é a verdade?”

Narrador 2: Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro dos judeus, e disse-lhes:
Leitor 1: “Eu não encontro nenhuma culpa nele. 39Mas existe entre vós um costume, que pela Páscoa eu vos solte um preso. Quereis que vos solte o rei dos Judeus?”

Narrador 2: 40Então, começaram a gritar de novo:

— “Este não, mas Barrabás!”

Narrador 2: Barrabás era um bandido. 19,1Então Pilatos mandou flagelar Jesus. 2Os soldados teceram uma coroa de espinhos e colocaram-na na cabeça de Jesus. Vestiram-no com um manto vermelho, 3aproximavam-se dele e diziam:

— “Viva o rei dos judeus!”

Narrador 2: E davam-lhe bofetadas. 4Pilatos saiu de novo e disse aos judeus:

Leitor 1: “Olhai, eu o trago aqui fora, diante de vós, para que saibais que não encontro nele crime algum”.

Narrador 1: 5Então Jesus veio para fora, trazendo a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes:

— “Eis o homem!”

Narrador 1: 6Quando viram Jesus, os sumos sacerdotes e os guardas começaram a gritar:

— “Crucifica-o! Crucifica-o!”

Narrador 1: Pilatos respondeu:

Leitor 1: “Levai-o vós mesmos para o crucificar, pois eu não encontro nele crime algum”.

Narrador 1: 7Os judeus responderam:

Leitor 2: “Nós temos uma Lei, e, segundo esta Lei, ele deve morrer, porque se fez Filho de 
Deus”.

Narrador 2: 8Ao ouvir estas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda. 9Entrou outra vez 
no palácio e perguntou a Jesus:

Leitor 1: “De onde és tu?”

Narrador 2: Jesus ficou calado. 10Então Pilatos disse:

Leitor 1: “Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?”

Narrador 2: 11Jesus respondeu:

— “Tu não terias autoridade alguma sobre mim, se ela não te fosse dada do alto. Quem me entregou a ti, portanto, tem culpa maior”.

Narrador 2: 12Por causa disso, Pilatos procurava soltar Jesus. Mas os judeus gritavam:
— “Se soltas este homem, não és amigo de César. Todo aquele que se faz rei, declara-se contra César”.

Narrador 1: 13Ouvindo essas palavras, Pilatos levou Jesus para fora e sentou-se no tribunal, no lugar chamado “Pavimento”, em hebraico Gábata”. 14Era o dia da preparação da Páscoa, por volta do meio-dia. Pilatos disse aos judeus:

Leitor 2: “Eis o vosso rei!”

Narrador 1: 15Eles, porém, gritavam:


— “Fora! Fora! Crucifica-o!”
Narrador 1: Pilatos disse:

Leitor 1: “Hei de crucificar o vosso rei?”
Narrador 1: Os sumos sacerdotes responderam:

— “Não temos outro rei senão César”.
Narrador 2: 16Então Pilatos entregou Jesus para ser crucificado, e eles o levaram. 17Jesus tomou a cruz sobre si e saiu para o lugar chamado Calvário”, em hebraico “Gólgota”. 18Ali o crucificaram, com outros dois: um de cada lado, e Jesus no meio. 19Pilatos mandou ainda escrever um letreiro e colocá-lo na cruz; nele estava escrito:

— “Jesus Nazareno, o Rei dos Judeus”.
Narrador 2: 20Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. 

21Então os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos:
Leitor 2: “Não escrevas ‘O Rei dos Judeus’, mas sim o que ele disse: ‘Eu sou o Rei dos judeus’”.

Narrador 2: 22Pilatos respondeu:

Leitor 1: “O que escrevi, está escrito”.
Narrador 2: 23Depois que crucificaram Jesus, os soldados repartiram a sua roupa em quatro partes, uma parte para cada soldado. Quanto à túnica, esta era tecida sem costura, em peça única de alto abaixo. 24Disseram então entre si:

Leitor 2: “Não vamos dividir a túnica. Tiremos a sorte para ver de quem será”.
Narrador 2: Assim se cumpria a Escritura que diz:

— “Repartiram entre si as minhas vestes e lançaram sorte sobre a minha túnica”.
Narrador 1: Assim procederam os soldados. 25Perto da cruz de Jesus, estavam de pé a sua mãe, a irmã da sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena. 26Jesus, ao ver sua mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava, disse à mãe:

— “Mulher, este é o teu filho”.
Narrador 1: 27Depois disse ao discípulo:

— “Esta é a tua mãe”.
Narrador 1: Dessa hora em diante, o discípulo a acolheu consigo. 28Depois disso, Jesus, sabendo que tudo estava consumado, e para que a Escritura se cumprisse até o fim, disse:

— “Tenho sede”.
Narrador 1: 29Havia ali uma jarra cheia de vinagre. Amarraram numa vara uma esponja embebida de vinagre e levaram-na à boca de Jesus. 30Ele tomou o vinagre e disse:

— “Tudo está consumado”.
Narrador 1: E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.
(Todos se ajoelham - Silêncio.)

Narrador 2: 31Era o dia da preparação para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque aquele sábado era dia de festa solene. Então pediram a Pilatos que mandasse quebrar as pernas aos crucificados e os tirasse da cruz. 32Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro que foram crucificados com Jesus. 33Ao se aproximarem de Jesus, e vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas; 34mas um soldado abriu-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.

— 35Aquele que viu, dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro;
Narrador 2: e ele sabe que fala a verdade, para que vós também acrediteis. 36Isso aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz:

— “Não quebrarão nenhum dos seus ossos”.
Narrador 2: 37E outra Escritura ainda diz:

— “Olharão para aquele que transpassaram”.
Narrador 1: 38Depois disso, José de Arimateia, que era discípulo de Jesus — mas às escondidas, por medo dos judeus —, pediu a Pilatos para tirar o corpo de Jesus. Pilatos consentiu. Então José veio tirar o corpo de Jesus. 39Chegou também Nicodemos, o mesmo que antes tinha ido a Jesus de noite. Trouxe uns trinta quilos de perfume feito de mirra e aloés. 40Então tomaram o corpo de Jesus e envolveram-no, com os aromas, em faixas de linho, como os judeus costumam sepultar.

Narrador 2: 41No lugar onde Jesus foi crucificado, havia um jardim e, no jardim, um túmulo novo, onde ainda ninguém tinha sido sepultado. 42Por causa da preparação da Páscoa, e como o túmulo estava perto, foi ali que colocaram Jesus.


— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O lava-pés



Anúncio do Evangelho (Jo 13,1-15)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + escrito por João.
— Glória a vós, Senhor.


1Era antes da festa da Páscoa. Jesus sabia que tinha chegado a sua hora de passar deste mundo para o Pai; tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
2Estavam tomando a ceia. O diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus. 3Jesus, sabendo que o Pai tinha colocado tudo em suas mãos e que de Deus tinha saído e para Deus voltava, 4levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. 5Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido.
6Chegou a vez de Simão Pedro. Pedro disse: “Senhor, tu me lavas os pés?” 7Respondeu Jesus: “Agora, não entendes o que estou fazendo; mais tarde compreenderás”.
8Disse-lhe Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés!” Mas Jesus respondeu: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo”. 9Simão Pedro disse: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”.
10Jesus respondeu: “Quem já se banhou não precisa lavar senão os pés, porque já está todo limpo. Também vós estais limpos, mas não todos”.
11Jesus sabia quem o ia entregar; por isso disse: “Nem todos estais limpos”.
12Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus vestiu o manto e sentou-se de novo. E disse aos discípulos: “Compreendeis o que acabo de fazer? 13Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, pois eu o sou. 14Portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. 15Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

Ontem terminou o período quaresmal, caracterizado pela penitência, reflexão e sacrifícios. Hoje inicia-se o tríduo pascal com a cerimônia do lava pés. No Evangelho de João, Livro da Glória, serão revelados os sinais da glorificação de Jesus. O amor caracteriza toda a cena e caracteriza o Cristo em suas atitudes. Lavar os pés uns dos outros traduz-se em um ensinamento cristão de humildade e serviço com o próximo. É o define, por natureza, cada seguidor do Evangelho, especialmente aqueles que detém o poder. Qualquer autoridade somente se justifica se for para servir e nunca ser servido. A exemplo do Filho de Deus. O gesto de Jesus lavar os pés de seus Discípulos foi uma verdadeira revolução e revelação para toda a humanidade. Além de ser um prelúdio de sua paixão, revela um gesto de amor infinito e extremo. O lava-pés remete à cruz. O serviço prestado de forma desinteressada ao próximo regenera, purifica, salva. Ninguém está acima de ninguém. Todos somos irmãos e iguais perante o Senhor. Não podemos admitir qualquer forma de discriminação, opressão, desigualdade ou injustiça. A dignidade humana é inviolável e inegociável. Nesta Ceia foi instituída, também, a Eucaristia, a forma com que comungamos o corpo e o sangue do Cristo que vive e reina entre nós, hoje e sempre. Portanto, pela Palavra proclamada hoje oremos para receber a graça de Deus para vivermos segundo Seus ensinamentos e que tenhamos fé o força suficientes para nos ajoelharmos diante do próximo e praticarmos o SERVIÇO, a CARIDADE e o AMOR!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Um de vós vai me trair

Evangelho (Mt 26,14-25)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, 14um dos doze discípulos, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes 15e disse: “Que me dareis se vos entregar Jesus?” Combinaram, então, trinta moedas de prata. 16E daí em diante, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus.
17No primeiro dia da festa dos Ázimos, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram: “Onde queres que façamos os preparativos para comer a Páscoa?” 18Jesus respondeu: “Ide à cidade, procurai certo homem e dizei-lhe: ‘O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo, vou celebrar a Páscoa em tua casa, junto com meus discípulos’”.
19Os discípulos fizeram como Jesus mandou e prepararam a Páscoa. 20Ao cair da tarde, Jesus pôs-se à mesa com os doze discípulos. 21Enquanto comiam, Jesus disse: “Em verdade eu vos digo, um de vós vai me trair”. 22Eles ficaram muito tristes e, um por um, começaram a lhe perguntar: “Senhor, será que sou eu?”23Jesus respondeu: “Quem vai me trair é aquele que comigo põe a mão no prato. 24O Filho do Homem vai morrer, conforme diz a Escritura a respeito dele. Contudo, ai daquele que trair o Filho do Homem! Seria melhor que nunca tivesse nascido!” 25Então Judas, o traidor, perguntou: “Mestre, serei eu?” Jesus lhe respondeu: “Tu o dizes”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

Judas, tomado pela cobiça, combinou "a venda" de Jesus, negociou com os sumos sacerdotes e os anciãos, ligados ao chefe religioso Caifás, por 30 moedas de prata. O dinheiro e a ganância dominaram o traidor. Ele preferiu as trevas à vida. Trocou a luz pela escuridão. Jesus foi traído por um de seus seguidores mais próximos, o mesmo que compartilhava aquele momento íntimo de aproximação. Na ceia, o Messias (Ungido) prediz que um dos Doze o entregará. A fidelidade daquela mulher - Maria - que ungiu-Lhe a cabeça com um caro perfume contrasta fortemente com a traição de um dos seus. É impossível servir, ao mesmo tempo, a Deus e ao dinheiro. Peçamos ao Pai que nos ilumine para, nesta caminhada peregrina na terra, nos conduzirmos sempre com os olhos voltados para o alto.

O que pensava Jesus

"O que Jesus pensava?

O que se passava na cabeça de Jesus na quarta-feira da semana santa? Havia experimentado a maior glória da sua vida no domingo anterior. Ele fora saudado com hosanas ao filho de Davi! A cidade o recebera como a um herói. A sagrada e tumultuada Jerusalém abrira suas portas de par em par. Mantos foram estendidos ao chão, ramos de oliveira agitados em frenesi. Foi o apogeu de uma carreira de três anos. Ele conhecia a cidade há muito tempo. Perdeu-se nela aos doze anos. Jerusalém, a dourada, com o templo refeito por Herodes, o Grande, deveria impressionar um homem nascido em Belém e criado na pacata Nazaré. 

Jesus amava a cidade santa. Em Lucas 19,41, lemos que ele chorou ao ver a cidade e antecipar sua destruição. Era uma paixão de verdade: sua maior crise de fúria tinha sido expulsar vendilhões do espaço sagrado. O gesto indicava seu zelo afetivo pelo lugar. Ninguém reconheceria o dócil pregador do Sermão da Montanha virando mesas e gritando. Talvez os íntimos conseguissem vislumbrar além: a cena impactante nascia do amor do Filho pela casa do Pai. 

Quarta-feira, mês de Nisã no calendário judaico, primavera na cidade santa. Dias mais frescos, céu azul, a temperatura mais amena de uma cidade alta. Como supomos que ele tinha capacidade de saber o que estava à frente, deveria existir um pouco de melancolia em relembrar que alguns dos que o saudaram do Domingo de Ramos estariam entre os que gritariam Barrabás na mesma semana. As mesmas bocas do “hosana” berrariam “crucifica-o”. 

Era a semana de Pessach, da celebração judaica que lembrava a libertação da escravidão do Egito. Haveria uma ceia com os amigos. Isso ocorreria amanhã, quinta-feira santa no calendário católico, quinta de endoenças na tradição portuguesa. 

No fim do século XV, Leonardo da Vinci canonizou a santa ceia como um ambiente centralizado, com 13 homens, sem empregados ou mulheres (Convento de S. Maria delle Grazie, Milão) . Jesus anuncia que alguém vai trai-lo. O afresco mostra o espanto geral. Judas segura um saco de moedas e derruba sal, sinal de azar. 


Cem anos mais tarde, Tintoretto ampliou a cena no quadro A última Ceia (Basílica de San Giorgio Maggiore, Veneza). Há funcionários, cachorros, anjos, louça sendo lavada. Passamos do mundo ordenado de Leonardo para uma rave. 


Na última ceia, Jesus diz algo comovente: eu desejei ardentemente comer esta ceia pascal antes de padecer (Lc, 22-15). É uma frase muito humana de compartilhar mesa e afeto com quem se ama antes do fim. Aqueles eram os doze homens que o acompanhavam havia anos. Alguns tinham gênio complexo. Tiago e João eram chamados de “filhos do trovão” pelo temperamento. Pedro era decidido e líder, mas negaria três vezes ao mestre na madrugada seguinte. Mesmo Judas estava ali. Talvez o Mestre tivesse uma dor dupla com seu tesoureiro: sabia que ele iria traí-lo, mas sabia que ele cometeria suicídio, o grande tabu judaico. Qual das dores mais incomodava ao Nazareno? Ser traído pelo discípulo-amigo ou perceber que Judas se condenava à danação? Era uma noite de emoções intensas. Os Evangelhos nunca narram Jesus sorrindo, mas descrevem inúmeros momentos do Messias chorando. 

Uma das virtudes de Jesus era a capacidade de surpreender. De repente, para espanto geral, Ele se levanta e começa a lavar os pés dos discípulos. Quer mostrar o grau de amor heróico que reverte hierarquias. Quem comanda é o primeiro servidor dos comandados. A lição é permanente e ainda não aprendida. Pedro, sempre cheio de arroubos teatrais, pede para ser lavado por completo. Jesus deve ser paciente. O pescador de homens está em formação. Pedro é um herói ainda imperfeito, que afunda na água quando tem medo, que nega o mestre, que cochila enquanto Jesus agoniza e que, ao final, vira a pedra sobre a qual toda a obra seria edificada. Pedro, a “pedra”, é humano. Jesus não escolheu anjos, mas seres humanos. Conhece a seus discípulos, e, curiosamente, ama-os do mesmo jeito. Amar conhecendo é um dom único e uma generosidade épica. 

A cena mais tocante da última Páscoa de Jesus é dada pelo afeto de João, o mais novo. Ele pousa a cabeça no peito do Mestre. É o benjamin do grupo e será o último a morrer. Ao redor daquela mesa estavam sentados o tema principal e cinco autores do Novo Testamento: Mateus, João, Pedro, Tiago e Judas Tadeu. Foi um encontro notável. Gosto de imaginar que, ali perto, numa cerimônia mais ortodoxa, estava o maior autor individual do Novo Testamento: Saulo de Tarso, sem saber que sua vida seria mudada pelos acontecimentos que transcorriam no Cenáculo. A ceia foi a última alegria de Jesus nas terríveis horas seguintes. 

Como funciona a cabeça de alguém que sabe o futuro? Eu me casaria tendo presente todos os desentendimentos futuros? Conversaria com alguém que me causaria decepção anos mais tarde? Talvez por isso seja vedado aos homens o conhecimento do futuro. Não aguentaríamos a dor da verdade pela frente. 

James Jacques Tissot (1836-1902) retratou o Calvário sob ângulo novo: a cena vista apelos olhos de Jesus (Ce que voyait Notre-Seigneur sur la Croix c. 1890. Brooklyn Museum, Nova York) . Procure essa imagem e você será apresentado a uma interpretação pouco comum. Ao invés de um Jesus centralizado, um que não está na cena ( a não ser por um detalhe dos pés), entretanto determina o horizonte de visão. Assumimos a posição dEle. 


A morte na cruz era excruciante pela dor; terrível pela humilhação de tormento típico de escravo e, para piorar, era a chance para o Messias avaliar a natureza humana que não cessa de surpreender pela pusilanimidade. Somos todos canalhas e, invariavelmente, covardes. 

E Ele amou aos homens apesar do que via. 

Boa semana santa."

Leandro Karnal