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| "Batismo de Cristo", de Verrocchio e Leonardo da Vinci |
O sol nascia sobre o deserto da Judeia. O ar era quente e silencioso, quebrado apenas pelo murmúrio das águas do Jordão. À beira do rio, homens e mulheres de rostos marcados pelo tempo aguardavam sua vez. Eram pecadores, peregrinos, corações cansados que buscavam um sinal de recomeço.
No meio deles, um Homem se aproxima. Nenhum brilho o distingue, nenhum gesto o separa da multidão. Ele anda devagar, olhando o chão e o céu — como quem conhece ambos muito bem. É Jesus de Nazaré.
João, o Batista, o vê aproximar-se. Sente no peito um tremor antigo, um mistério que reconhece sem precisar compreender. A água que corre diante dele parece deter o fôlego.
— Sou eu quem deveria ser batizado por ti…, diz João, hesitante.
Mas Jesus responde com serenidade firme:
— Deixa por agora. Convém que assim cumpramos toda a justiça.
E assim, o Filho de Deus entra nas águas do arrependimento humano.
Aquele que é sem pecado junta-se aos pecadores.
A Luz mergulha na sombra.
O Puro desce à lama.
O Salvador se faz solidário com os perdidos.
Jesus se inclina. A água cobre sua cabeça.
Por um instante, o tempo parece parar.
O rio Jordão, testemunha silenciosa, espelha o rosto daquele que é o próprio Cordeiro de Deus.
Então — o impossível acontece.
O céu se abre.
Aquele céu, tantas vezes fechado pela desobediência humana, rasga-se como um véu. A eternidade invade o tempo.
E o Espírito Santo desce como uma pomba, pousando sobre Ele com doçura infinita.
Do alto, uma voz se faz ouvir, não como trovão, mas como ternura que tudo envolve:
“Tu és o meu Filho amado, em ti encontro todo o meu agrado.”
Céu e terra se tocam.
O eterno se faz audível.
O invisível se torna presença.
A cena é breve — quase telegráfica — mas nela cabe o infinito.
Ali, no meio do povo, Deus se revela: Pai, Filho e Espírito Santo.
Não é espetáculo. Não é mito. É a realidade divina irrompendo na história humana.
O Messias se apresenta não no trono, mas no rio.
Sua realeza começa com humildade.
Sua glória nasce da descida.
Sua divindade brilha no gesto de quem se abaixa por amor.
E o homem que olha essa cena talvez não compreenda.
Talvez se acostume. Talvez leia e siga adiante.
Mas se parasse — se fizesse silêncio —
veria ali o cartão de identidade de Deus revelado ao mundo:
Jesus, o Filho eterno, consagrado pelo Pai, ungido pelo Espírito.
Naquele instante, o plano da salvação começa a pulsar visivelmente.
A Trindade Santa se manifesta.
O tempo é tocado pela eternidade.
E o Jordão, simples rio da Palestina, se torna o berço das águas redentoras que um dia correrão no batismo de todos nós.
A humanidade, mergulhada no pecado, vê um novo horizonte se abrir:
O céu não está mais fechado.
Deus fala.
E o homem ouve.
Desde então, cada batismo é eco daquele momento.
Cada gota de água batismal é lembrança desse mergulho primeiro.
Cada cristão é convidado a viver o mesmo movimento:
descer para ser elevado, esvaziar-se para ser cheio de Deus.
O Jordão continua correndo.
Mas quem o atravessa agora já carrega em si o selo daquela voz antiga:
“Tu és meu filho amado.”
E é assim que a história da salvação segue fluindo — como o rio — do coração de Cristo ao coração de cada um de nós.
